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  • Terra Pura

    O Caminho do Discípulo

    O caminho do discípulo não se refere a um   caminho específico de vida. Ele se refere, mais exatamente, ao fato de que   uma vez estando abertos nossos olhos para nossas aspirações mais íntimas,   nossa vida inteira é transformada numa vida de “ouvir o Ensinamento”.

    Esse modo de   vida é a mais verdadeira expressão da nossa natureza mais íntima – sem isso, jamais nossas vidas atingirão a realização. Há tantos estilos de vida diferentes, quanto há seres humanos, e apesar disso, estamos todos   unidos pela nossa natureza humana. A partir dessa base comum, encontramos nossa unidade neste ato de ouvir o Ensinamento. Os patriarcas da Terra Pura,   esclarecem que a religião não é nada em especial, mas algo fundamental, que é compartilhado por toda a humanidade. Essa visão foi depois melhor desenvolvida por Shinran.

    O Budismo tem três elementos básicos: Ensinamento, Prática e Iluminação. Primeiro toma-se refúgio no Ensinamento, depois pratica-se o que ele transmite e,   através disso, obtém-se a iluminação. Tal é o caminho do Budismo.

    Entretanto, como mostrará um estudo histórico, os budistas nem sempre se sentiram satisfeitos com esse caminho franco e direto. Sempre houve um desejo de   entender os Ensinamentos de Buda em termos intelectuais, um desejo que às vezes se sobrepõe à real mensagem do Budismo. O Budismo requer apenas que   vivamos e morramos de acordo com o que o Buda ensinou; a abordagem   intelectual apenas tem complicado e obscurecido essa verdade simples. Quanto maior o ímpeto para a lógica, mais o Ensinamento perde do seu significado religioso. Quando abordado de uma forma puramente intelectual, o Ensinamento   é reduzido a pouco mais que uma especulação filosófica. E o Ensinamento não é especulação, ele existe para nós, aqui neste exato momento.

    Constantemente recebemos o Ensinamento, independentemente de “entendê-lo” ou não. Aquilo que entendemos intelectualmente é um mero dogma ou crença doutrinária,  não é o Ensinamento ativo e vivo no qual podemos basear nossas vidas. Isto não é religião no sentido que a palavra japonesa shukyo (A palavra japonesa Shu significa Essencial e a palavra Kyo é o   Ensinamento) – religião – implica.

    Por trás do   desejo de entendimento intelectual sempre se levanta uma espécie de vaidade, um sentimento de que o Ensinamento é algo que alguém pode utilizar para si   próprio, e por si próprio. Isto nada mais é que afirmação do ego– envolve a visão de que o Buda nada mais é que um homem e que o Budismo é nada mais que uma coleção de dizeres de uma pessoa chamada Shakyamuni.

    Essa visão intelectual, esquece o inteiro significado do relacionamento entre Ensinamento e discípulo. O verdadeiro entendimento do Ensinamento necessita da transcendência do ego, esse mesmo ego que busca entendimento racional.   Quando o ego é transcendido, vemos que as palavras do Buda, vindas do mundo de Nyorai – o absoluto – não são simplesmente os Ensinamentos de algum “grande homem”.

    Portanto, a verdade mais profunda dessas palavras está além da compreensão do simples nível de entendimento humano. Seu significado nos parece somente se   devotarmos nossa vida inteira a ouvir e aprender o que delas provêm. Assim   sendo, o verdadeiro significado do Budismo está disponível apenas àqueles que ouvem, guardando a postura de discípulos.

    Acho que a principal razão pela qual o Budismo tem conseguido manter sua vitalidade como religião, apesar da contínua tendência à intelectualização, é que   muitas pessoas simples – não homens de estudo e conhecimento – têm  tomado refúgio no Ensinamento, têm seguido seriamente suas intenções e têm vivido suas vidas à sua luz. São essas pessoas que têm preservado o espírito vivo do Budismo. Para elas, o Budismo tem sido sempre o caminho do   Ensinamento, da Prática e da Iluminação.

    Os patriarcas da Terra Pura foram homens que, movidos pela sinceridade dessas pessoas simples, dedicaram suas vidas ao caminho do Budismo. Eles não tiveram a   intenção específica de iniciar uma tradição – a da Terra Pura – em contestação a outras Escolas Budistas. Eles, simplesmente detectaram o engano daqueles que se aproximam do Budismo pelo lado intelectual,   reconhecendo que o Ensinamento não é algo para ser tomado racionalmente, mas exatamente algo para ser ouvido com toda a integridade do ser.

    Assim sendo,  os patriarcas da Terra Pura revelaram a direção na qual repousa o verdadeiro espírito do Budismo. Na verdade eles nos mostram que todos os   homens sem exceção, podem receber o Ensinamento, desde que se voltem para as origens da vida. Isso não é difícil de entender. Todos têm pai e mãe,   e todos são nutridos pelo mundo ao seu redor – essas verdades fundamentais de existência mantêm cada ser com vida. Ninguém brota do solo. É neste nível de entendimento, que se encontra o mínimo denominador comum da vida, em que todos os seres humanos ouvem o Ensinamento em completa igualdade.

    Assim sendo, o Ensinamento da Terra Pura é um caminho universal, no qual os patriarcas da Terra Pura enfatizaram que a vida religiosa é a mais verdadeira vida para o espírito humano. Quando enxergamos além de todas as diferenças superficiais – inteligência, habilidade, personalidade e características  morais – voltamos à nossa natureza original, sem sofisticação, e nos   encontramos no caminho do discípulo, ouvindo o Ensinamento na simplicidade do coração. Tal é a promessa da vida, a promessa revelada no Ensinamento de Shinran.

    Rev. Takashi Hirose

    Sobre o autor

    Takashi  Hirose nasceu em 1924 em Kyoto, no Japão. Segundo filho de uma família de monges budistas, recebeu a ordenação aos 9 anos de idade. Em 1942, entrou para a Universidade Otani, em Kyoto, uma universidade budista ligada ao Templo Higashi Honganji. Finalmente, recebeu o seu doutorado em Budismo Shin   e em 1960 começou sua carreira de professor universitário. De 1970 a 1975 ele licenciou-se e durante este período fez palestras de Budismo Shin, por todo o Japão. Em 1980 foi eleito Reitor da Universidade Otani. O Dr. Hirose dirige o Grupo de Estudos Monko-sha, que se ocupa de pesquisas de  textos clássicos do Budismo Shin. Palestrista popular, o Dr. Hirose é também autor de vários livros e artigos sobre Budismo Shin.

  • Terra Pura

    Reverência

    Então, quais são as características de uma vida religiosa, uma vida de fé? Internamente há o Ensinamento, ou seja, a Doutrina, externamente há a expressão religiosa. Isto é, nós ouvimos e acreditamos nos Ensinamentos religiosos e manifestamos esta crença externamente através da reverência. Estas são as duas mais importantes características da vida religiosa.

    Vasubandhu (a.c.320-400) da Índia, um dos Patriarcas da tradição da Terra Pura, evidenciou a reverência como o primeiro passo para a entrada na pura vida religiosa. Sem a reverência não há verdadeira religião. Nós dissemos que a verdadeira vida religiosa é aquela dedicada a ouvir o Ensinamento e praticar a reverência.

    Estaremos nós então, considerando cada ocasião na qual reverenciamos ou ouvimos o Ensinamento como sendo uma genuína manifestação de pura vida religiosa? É mais ou menos como diz o velho ditado: “Mesmo uma cabeça de sardinha pode tornar-se objeto de reverência se alguém tem fé”. Mesmo algo como uma cabeça de sardinha pode tornar-se objeto de fé se alguém posiciona sua mente neste sentido e eu penso que isto poderia até ser chamado de “reverência”.

    Entretanto, se olharmos mais cuidadosamente para o interior da mente que reverencia desta forma geralmente encontraremos mais egoísmo do que qualquer outra coisa. Esse egoísmo pode assumir uma pretensa religiosidade, mas realmente ele está apenas tentando satisfazer os desejos do ego. Se nossa vida religiosa estiver fundamentada nesta espécie de atitude egoísta, estaremos certamente inclinados a escolher qualquer fé, desde que haja mais vantagens para nós mesmos. Um exemplo marcante disso, é o comerciante no qual a fé religiosa é meramente uma extensão de seu desejo de lucro. Isso não é Religião Verdadeira, qualquer que seja o sentido da palavra.

    Reverência no seu sentido original tem a conotação de auto-transcendência, literalmente abaixar a cabeça. Tal é a forma de reverência que o nosso todo deve assumir.

    Anseios tais como o desejo de saúde ou de bem estar podem compor uma parte de nossa vida, mas não podem nunca formar sua totalidade. Sendo assim, por um lado, mesmo que reverenciemos para obter satisfação dos nossos desejos pessoais, por outro lado, eu digo que isso não é a verdadeira reverência.

    A reverência vista especificamente desta forma, não é algo fácil. Alguém poderia quase dizer que ela é impossível dentro dos limites da capacidade humana.

    O monge chinês T’an-luan (476-542), um dos patriarcas da Terra Pura, certa vez escreveu: “A devoção é sempre acompanhada de reverência mas a reverência nem sempre é acompanhada de devoção”. A devoção, o verdadeiro “inclinar a cabeça diante de algo”, leva naturalmente a uma vida de sincera reverência. Mas, não obstante quão zelosamente possamos reverenciar, se nós continuamos abrigando desejos egoístas em nossos corações, então, nossa reverência não constituirá a sincera reverência, é uma vida de negação do ego e de todas as suas intenções.

    Essa pura vida religiosa, essa vida que não permite o egoísmo, brota quando todo o nosso ser é transformado num veículo para receber o Ensinamento. Toda a nossa vida deve tornar-se um ato de ouvir o Ensinamento, todo o evento servindo de condição para o aprendizado de vida, independendo de quais sejam as circunstâncias nas quais nos encontremos.

    Genericamente falando, não podemos nunca fazer uma mesma coisa duas vezes na vida. Assim sendo, sempre acho um pouco engraçado quando pessoas mais velhas dizem às mais jovens: “Vocês jovens cometem tolices porque não viveram o bastante para saber melhor. Nós, pessoas mais velhas, temos muita experiência e portanto raras vezes cometemos erros como vocês”. Isso parece bastante verdadeiro a princípio, mas eu não penso que seja válido. Enfatizando um pouco o que eu digo, sinto que uma criança de três anos é exatamente igual a um adulto de oitenta, pois cada experiência vivida por ambos é única e sem repetição. Independentemente de quanta experiência possamos ter tido, ninguém prediz o que está guardado ou reservado para nós, no próximo instante, no futuro. A cada momento, cada um de nós está adentrando aquele intervalo de tempo que é sempre novo e nunca foi antes percorrido por nenhum outro ser humano.

    Não podemos predizer o que o amanhã pode trazer. Mesmo que possamos falar sobre nossos planos de vida, isto não significa que eles aconteçam no futuro. Assim, por mais que tentemos usar a religião para atingir fins egoístas, mais angústias teremos que suportar diante dos eventos inesperados que surgem a cada momento. A religião usada desta forma, jamais poderá nos ajudar com sucesso, diante dos imprevistos da realidade da vida.

    Um Sutra afirma: “É neste exato momento, neste exato lugar, que o Buda prega o Dharma”. A verdadeira religião deve ser aquela que preenche a totalidade de nossa vida. A religião deve ser uma fonte inesgotável para esta vida, ou seja, o ponto do qual, nós constante e renovadamente, recebemos o Ensinamento. Nossas vidas serão assim, transformadas, transformadas numa vida de reverência, que é a verdadeira vida religiosa, na qual nós inclinamos nossas cabeças e ouvimos o Ensinamento.

    Vista desta perspectiva, a modernização da religião, não é meramente uma questão de reformá-la para sua adequação às necessidades dos dias atuais. Nós que temos tais necessidades, devemos em verdade, ser aqueles que recebem os Ensinamentos e se empenham em buscar neles o significado das nossas vidas.

    Um pensador religioso, o Manshi Kiyozawa (1863-1903) disse certa vez:

    A religião não existe para o alimento, para a nação, para o enriquecimento ou defesa de uma nação, para a fama ou prosperidade individual. A religião existe para a aspiração infinita, que jaz nas profundezas da mente humana.

    A verdadeira religião não tem resposta para nossas buscas egoístas. Ao invés disto, ela nos mostra o caminho além do sofrimento e da aflição causados por aquelas mesmas buscas. Enquanto isto não for entendido, a religião não pode dar a resposta aos nossos mais íntimos anseios.

    Rev. Takashi Hirose (extraído do livro “O Caminho do Discípulo”)

  • Nichiren

    Compaixão e o cuidado de si mesmo

    Nós falamos o tempo todo sobre compaixão pelos outros; Este é um dos mais constantes temas de orientação Budista. Nós também falamos sobre compaixão por nós mesmos, e entre os dois, acredito que auto compaixão seja talvez o mais desafiador para as pessoas. É interessante que costumamos tratar nossos amigos melhor que tratamos a nós mesmos, e acreditamos até que seja de alguma maneira correto ou até mesmo admirável. A auto-compaixão é deturpada quando igualada a ser tolerante consigo mesmo, ser preguiçoso ou vários outros conceitos negativos os quais não relacionamos à compaixão que sentimos pelos outros.

    Algumas destas associações negativas que fazemos com auto-compaixão são: permissividade, egoísmo e auto-criticismo, tornando então difícil de emprega-la a si. Pense sobre isto por um momento e considere se estes mesmos valores são aplicados quando nós sentimos compaixão por um amigo.

    Ser compassivo requer que tenhamos bondade amorosa com os outros, e isto também requer que sejamos autênticos. Como podemos ser inteiramente desta maneira para alguém, se nós não somos capazes de ser com nós mesmos? Quando somos compassivos com os outros percebemos o sofrimento deles e estamos presentes em suas dores. Ou seja, não quer dizer então que somos permissivos ao testemunhar e nos preocupar com o sofrimento que os outros experimentam.

    Se ignorarmos nosso próprio sofrimento, estamos proibindo a nós mesmos a habilidade de entender verdadeiramente o sofrimento na vida dos outros. Ser compassivo não requer uma crítica interna como motivação, então quando somos verdadeiramente compassivos com os outros não precisamos critica-los mas sim apoia-los em suas próprias soluções. O mesmo é verdadeiro para nós. Não precisamos de crítica interna, o que precisamos é a voz da compaixão que inspire confiança para seguir em frente e encontrar uma solução para o sofrimento.

    Alguns formas de poder aprender a ter auto-compaixão seriam: reconhecer o sofrimento, tratar a si próprio como se fosse um amigo, lembrar-se de sua humanidade, praticar a atenção plena e meditação, além de praticar a bondade amorosa para si mesmo.

    *tradução livre do texto “self-care; compassion” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

  • Terra Pura

    Reflexões Pela Ocasião Da Morte De Um Jovem

    “Podemos dizer que é penoso, mas as palavras nem dão conta de tanta dor. A fragilidade do ser humano nem sequer estabelece distinção entre velhos e jovens.” (Trecho da Carta da Ossada Branca do Mestre Rennyo)

    A morte por si só afeta a todos nós, independente de já termos ou não testemunhado uma experiência tão dolorosa, que é a perda de um ente querido. Mas a dor dessa perda nos afeta muito mais intensamente quando a morte nos leva embora de forma sorrateira, imprevisível e tão definitivamente uma pessoa jovem. Resta em nós um sentimento de prejuízo, de revolta, de que fomos iludidos. O falecimento de uma pessoa idosa, doente ou incômoda, apesar de tudo, nos consola pelo sentimento de alívio, para nós e para quem partiu, pelo sentimento de dever cumprido, de uma vida longa e plena. Mas quando a morte atinge uma pessoa jovem, que deixa projetos em andamento, filhos pequenos, pais vivos e tantas possibilidades, tanto potencial a ser desenvolvido, tanta vida a ser vivida… escancara-se a realidade de que basta estar vivo para morrer.

    Resta-nos uma sensação de termos sido enganados, como se nestes casos, a Vida fosse um grande estelionato. Vêm-nos à mente frases prontas como: uma mãe jamais deveria morrer jovem, tanta gente ruim nesse mundo que merecia ser morto em lugar de morrer bons cidadãos, os pais jamais deveriam enterrar os filhos… Entendemos que o natural é jovens enterrando seus velhos, gente boa sendo premiada com vida longa e os maus sendo castigados com a morte inexorável. Isso tudo me faz lembrar de uma fala de algum ‘filmeco’ de madrugada insone, em que apenas uma frase valeu mais do que o contexto total do filme: “nada é como deveria ser”. A frase resume a impermanência da vida, o nosso apego e o consequente sofrimento, conceitos pregados pelo Buda. O “deveria ser” das frases acima, é resultado de conceitos e valores próprios de cada um, de nosso apego, e quando os fatos contradizem os ideais que “deveriam ser”, vem o sofrimento. Esquecemos da impermanência, única regra que é concomitantemente a sua própria exceção.

    A morte inquestionavelmente é o mais democrático e não preconceituoso dos acontecimentos, é a única certeza que temos na vida, pois esta, certa neste exato momento, é uma incógnita no momento seguinte. Nas palavras do Mestre Rennyo: “nosso corpo, que pela manhã ostenta faces rosadas, ao entardecer pode estar transformado em uma ossada branca”.

    Não se pode ter a pretensão de que os ensinamentos do Budismo podem melhor confortar e conformar àqueles que se deparam com uma morte “injusta”, posto que dor é sempre dor, mas que a partir dessas reflexões, talvez possamos nos limitar a chorar a dor da separação causada pela morte, desobrigando-nos de suportar a sensação de perda desnecessária e injusta, para que a morte de uma pessoa jovem nos faça refletir o quanto a vida é frágil, e que merece ser vivida em plenitude, seja longa ou curta, pois a vida individual está inserida num contexto muito maior, que é a Vida Imensurável. E que essa vida encerrada prematuramente, possa estar agora unida à Vida e Luz Infinitas, vivificando-nos até o dia em que a dor se transforme em lembrança, e que enfim, possamos nos reencontrar na Terra Pura do Buda Amida.

    Só nos resta, em meio às lágrimas, juntar nossas mãos e recitar:

    Namu Amida Butsu

    Reva. Sayuri Tyojun

  • Zen

    Zen consumista ou zen shūgyō? – 1ª parte

    A transmissão do budismo de uma cultura para outra tem-se demonstrado, às vezes, um processo difícil e demorado. Por exemplo, devido às grandes diferenças culturais e de valores sociais entre a Índia e a China, a transmissão do budismo para o segundo país passou por fases de “mistura” com o taoísmo e o confucionismo e levou aproximadamente 600 anos para assentar a poeira e para que o budismo chinês pudesse assumir sua própria identidade.

    Em contraste, a transmissão da China para o Japão, Coreia e outros países fortemente influenciados pela cultura chinesa foi um processo muito mais suave com muito menos confusão.

    Bem, estamos vivenciando a transmissão do budismo dos países orientais para os países ocidentais e lidando com diferenças culturais e linguísticas quase inimagináveis. E isto se aplica também ao caso da transmissão do zen Japonês para os países das Américas (do Norte e do Sul).

    Se é verdade que acredito que vêm surgindo algumas inovações interessantes e válidas no budismo “ocidental”, como a expansão da prática leiga, vejo também muitas más-interpretações graves sobre o zen-budismo japonês aqui no ocidente: confusões e mitos sobre a sua prática, moralidade, formas, rituais… Vejo muita “apropriação cultural”, em que grupos adotam aqueles aspectos do zen que aparentemente se encaixam na sua ideologia, seja “hippie”, “feminista”, “LGBT”, “esquerdista”, “neoliberal”, etc., e descartam quaisquer aspectos do zen que destoem destes ideais preconcebidos, alegando “degeneração das práticas” ou “diferenças entre as mentalidades orientais e ocidentais”.

    Sem experimentar verdadeiramente o “pacote completo” do zen, selecionam pedaços aqui e acolá para formar uma coisa que, para fins didáticos, estou chamando de “zen consumista”.

    A prática num mosteiro de treinamento oficial tradicional é chamada de “shūgyō” (修業), que significa “busca de conhecimento, estudo, aprendizagem, treinamento, prática ascética, disciplina”. Ainda para fins didáticos, vou chamar isto de “zen shūgyō”.

    Nos próximos artigos, pretendo procurar esclarecer um pouco a diferença entre este “zen consumista” e o “zen shūgyō”.

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Terra Pura

    O Budismo te incomoda? Então…

    … talvez você busque algo que não é budismo…. vamos ver o que a Reva Yvonete Joko tem a nos dizer:

    Desfazendo Equívocos

    Se você quer milagres, não procure o budismo. O supremo milagre para o budismo é você lavar seu prato depois de comer.

    Se você quer curar seu corpo físico, não procure o budismo. O budismo só cura os males de sua mente: ignorância, cólera e desejos desenfreados.

    Se você quiser arranjar emprego ou melhorar sua situação financeira, não procure o budismo. Você se decepcionará, pois ele vai lhe falar sobre desapego em relação aos bens materiais. Não confunda, porém, desapego com renúncia.

    Se você quer poderes sobrenaturais, não procure o budismo. Para o budismo, o maior poder sobrenatural é o triunfo sobre o egoísmo.

    Se você quer triunfar sobre seus inimigos, não procure o budismo. Para o budismo, o único triunfo que conta é o do homem sobre si mesmo.

    Se você quer a vida eterna em um paraíso de delícias, não procure o budismo, pois ele matará seu ego aqui e agora.

    Se você quer massagear seu ego com poder, fama, elogios e outras vantagens, não procure o budismo. A casa de Buda não é a casa da inflação dos egos.

    Se você quer a proteção divina, não procure o budismo. Ele lhe ensinará que você só pode contar consigo mesmo.

    Se você quer um caminho para Deus, não procure o budismo. Ele o lançará no vazio.

    Se você quer alguém que perdoe suas falhas, deixando-o livre para errar de novo, não procure o budismo, pois ele lhe ensinará a implacável Lei de Causa e Efeito e a necessidade de uma autocrítica consciente e profunda.

    Se você quer respostas cômodas e fáceis para suas indagações existenciais, não procure o budismo. Ele aumentará suas dúvidas.

    Se você quer uma crença cega, não procure o budismo. Ele o ensinará a pensar com sua própria cabeça.

    Se você é dos que acham que a verdade está nas escrituras, não procure o budismo. Ele lhe dirá que o papel é muito útil para limpar o lixo acumulado no intelecto.

    Se você quer saber a verdade sobre os discos voadores ou sobre a civilização de Atlântida, não procure o budismo. Ele só revelará a verdade sobre você mesmo.

    Se você quer se comunicar com espíritos, não procure o budismo. Ele só pode ensinar você a se comunicar com seu verdadeiro eu.

    Se você quer conhecer suas encarnações passadas, não procure o budismo. Ele só pode lhe mostrar sua miséria presente.

    Se você quer conhecer o futuro, não procure o budismo. Ele só vai lhe mandar prestar atenção a seus pés, enquanto você anda.

    Se você quer ouvir palavras bonitas, não procure o budismo. Ele só tem o silêncio a lhe oferecer.

    Se você quer ser sério e austero, não procure o budismo. Ele vai ensiná-lo a brincar e a se divertir.

    Se você quer brincar e se divertir, não procure o budismo. Ele o ensinará a ser sério e austero.

    Se você quer viver, não procure o budismo, pois ele o ensinará a morrer.

    Se você quer morrer, não procure o budismo, pois ele o ensinará a viver.

     

    Nota: Esse texto é de autoria da Rev. Yvonete Gonçalves (Shakuni Joko) qualquer reprodução deve citar o nome da autora.

     

  • Nichiren

    Benefícios dos Rituais

    Na Nichiren Shu, assim como possivelmente em todas as religiões, existem certos rituais que são realizados como uma parte da prática. Para algumas pessoas, estes rituais podem parecer limitados. Algumas vezes nós pensamos com nós mesmos, porque fazemos a mesma coisa repetidamente; nada parece mudar; ou isto é chato e tedioso, porque não fazemos algo diferente?

    No Budismo nós temos um objetivo em mente como razão para a nossa prática. Este objetivo é a iluminação. O Buda revelou o objetivo através de sua própria prática pessoal.

    Primeiro ele se deu conta de uma razão para a prática, que é buscar um caminho para eliminar os sofrimentos da vida. Em seguida ele percebeu que a resposta não seria encontrada se continuasse a levar uma vida fácil e confortável no palácio com seu pai. Ele abandonou sua antiga vida como um príncipe e partiu para a prática asceta (austeridades) nas florestas. Após muitos anos suportando severas privações, ele sentou sob a árvore Bodhi e tornou-se o desperto, o iluminado, a quem chamamos Buda.

    Se pensarmos em nossa prática Budista, a prática para atingir a iluminação, em termos de um guia e um viajante, podemos ver que como um viajante nós precisamos ter um destino ou um objetivo em mente. Hoje quando nós queremos viajar para algum lugar, muitas pessoas frequentemente recorrem aos seus GPSs, programam seu destino e então seguem as direções fornecidas. Não pensamos sobre isto, é algo comum, e consideramos sensato.

    Nós fazemos a mesma coisa em nossa prática religiosa. Nós decidimos sobre um destino, se é o céu ou iluminação. Então encontramos um dispositivo GPS apropriado e seguimos as instruções fornecidas. Na prática religiosa nós substituímos nosso GPS com as instruções fornecidas por viajantes anteriores, como professores, que estabeleceram um mapa para usarmos como instruções de viagem.

    Uma vez eu estava apegado a ideias erradas, e me tornei um professor dos aspirantes ao ensino de Brahman. Você expôs para mim o ensino do Nirvana, e removeu minhas ideias erradas porque você me entendeu.
    (Sutra de Lótus, capítulo 3)

    No Budismo Nichiren, nosso guia, nossos professores, são pessoas tal como Nichiren e outros antes dele, os quais ele teve como base para seus estudos. Em outras palavras, eles são professores que fizeram uma profunda viagem espiritual. Desde o tempo do Buda eles servem como nossos guias ao apontar um caminho para praticar uma fórmula ou ritual.

    O ritual serve como uma estrutura inicial sobre a qual nós podemos construir nossa própria experiência espiritual. Nós usamos o ritual como um ponto de partida, que nos foi dada para que não tenhamos que iniciar do zero quando começamos nossa prática. Conforme passa o tempo, nós aprendemos mais e então podemos expandir o fundamento básico que nos foi dado por nossos professores.

    É quase a mesma coisa em muitos esforços da vida. Nós poderíamos pensar nossa prática como estar em um mundo de ação, nos ajudando a entrar no mundo interior. Há segurança a medida que entramos no mundo interior pela ação, porque há um guia. Quando levantamos peso, nós temos um treinador, alguém que nos auxilia se estivermos fazendo algo errado ou com algum problema. Se é mergulho, paraquedismo, escalada em rocha, a lista poderia ser infinita, mas a fim de estar seguro, a fim de ganhar a experiência necessária, buscamos bons professores que irão orientar-nos a medida que aprendemos nosso caminho.

    Rituais podem servir para abrir a janela da oportunidade, que é diferente de se aproveitar de uma janela de oportunidades já aberta – o truque é que eles abrem a janela mas eles não são a janela em si. Rituais devem e podem servir para ampliar as experiências e transcender – não limita-las.

    Em nossas vidas nós contamos com a fé para muitas coisas. Nós temos fé que a ponte que atravessamos não entrará em colapso, temos fé nos edifícios que habitamos e trabalhamos. Nós temos fé em nossos carros. Fé é em certo grau uma maneira de renunciar o controle para aqueles que dominam a bela arte das coisas que desejamos compartilhar. O mesmo vale para religião. Nós temos fé nos professores e nos ensinamentos e nos damos conta que podemos não ter dominado tudo que há para se conhecer e saber, e nós confiamos nos professores para nos instruir.

    Apesar de você saber todos os fatos de alguma coisa não significa que você tenha mudado significativamente sua essência da vida. Ter informação acumulada não equivale a ter feito um avanço significativo em mudanças realizadas. Rituais podem nos ajudar a transformar informação em realização. Rituais podem facilitar uma transcendência de um conhecimento sobre algo para na verdade manifestar o benefício daquele conhecimento.

    Estas pessoas que se manifestam pelos meus poderes, ouvirão o Dharma de mim, recebam-no pela fé, sigam-no, e não se oponham a ele. (Sutra de Lótus, capítulo 10)

    A medida que recitamos o sutra e o Odaimoku (Namu MyoHoRenGeKyo), nós, mesmo que brevemente, suspendemos nosso intelecto para criar espaço para o nosso interior surgir e se conectar com nosso conhecimento.

    *tradução livre do texto “Benefits of Rituals” do Rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

    Gassho.

  • Terra Pura

    Renascimento: Uma Visão Didática

    Uma pessoa então me perguntou sobre o renascimento. “Afinal, quem ou o que renasce?”; “Renascimento ou Reencarnação?”; e como tenho uma visão didática para explicar isso, resolvi colocar aqui e deixar para todo mundo. Aí vai…

    Imagine um pedaço de terra. Um sítio ou uma chácara. Com cercas, mas ao mesmo tempo integrada com seus vizinhos, como em um condomínio. Imagine, uma porção de terra cercada, com o solo com algumas plantinhas, mas sem nenhuma construção. Pode colocar uma árvore onde você quiser e algumas flores para ficar bonitinho, se preferir.

    Pois bem. Agora imagine que você herdou essa propriedade, do jeito que a deixaram, pois simplesmente o último dono, que podia ser seu parente, a deixou para você, com todas as benfeitorias, plantações, dívidas e problemas, também.

    Então, imagine-se encostado na cerca, olhando a paisagem e pensando no que poderia fazer com aquele pedaço de solo. Como tudo na vida, você pode simplesmente não fazer nada, ficar ali parado vendo o tempo passar e ver o mato crescer, a árvore dar frutos, as plantinhas florescerem. Porque essta terra, vai ter seu ciclo com ou sem sua interferência.

    Mas digamos que você resolve interferir e começa a lidar com a terra. Ara de um lado, gradeia do outro (meu pai tem uma fazenda, é por isso que conheço os termos!) e finalmente resolve fazer uma pequena plantação de milho, que seja. Do outro lado, você semeia árvores frutíferas, umas dez ou doze e na outra ponta constroi um pequeno casebre.

    Depois de um tempo, no meio da plantação de milho aparecem alguns pézinhos de feijão. “Mas que coisa estranha!”, pensa você. “Eu só plantei milho. Como pode?” Com um pouco de trabalho, você retira os pés de feijão que estavam invadindo seu terreno, só que onde tinha feijão, o milho não nasceu.

    Já, do lado do pomar, nem todas as árvores frutíferas germinaram, mas as que se desenvolveram geraram sombra e alimento que garantiu sua subsistência por algum tempo e também lhe garantiu relacionamento com seus vizinhos, pois eles usavam parte do adubo que você gera com as cascas das frutas e os sabugos de milho. Ao mesmo, tempo, sendo que suas terras não tinham água suficiente, você utilizava o poço artersiano de seu outro vizinho. Criando assim, uma relação simbiótica. Interdependente.

    Um belo dia, ou não tão belo assim, ao passar com seu trator sobre um monte de terra, abre uma cratera e de lá saem centenas de lagartas que passam a atacar seu milho e seu pomar. “Mas de onde surgiram essas lagartas? Há quanto tempo estavam aí? Porque foram aparecer agora?”. Não havia muito o que fazer, além de combater os efeitos da ação das lagartas, uma vez que elas já estavam lá. Foi um período ruim, mas não foi nenhuma tragédia.

    Depois de algumas décadas, você resolver partir. Buscar outra terra. E deixa esta que você trabalhou, da maneira que estava. Com sua plantação de milho, seu pomar e seu casebre. Então, você resolve doa-la a outra pessoa, que logo que você sai, ela toma posse dessa sua ex-gleba. E esse novo proprietário, da mesma maneira que você, começa a olhar para a terra e tomar decisões do que fazer: “Continuo com a plantação de milho? Acho que sim. E o pomar? Acho que vou plantar mais árvores. Água? Vou construir um poço, mas ainda mantenho a amizade com meu vizinho. E a casa? Não vou fazer nada com ela, que está bem assim.” E o ciclo recomeça.

    Nossa vida é a terra, o fazendeiro é nossa mente; a decisão de fazer algo, é nosso pensamento; a plantação, o pomar e o casebre são nossas ações; nossos vizinhos são a interdependencia que temos com todos os seres. As flores, as espigas de milho, as frutas são os resultados de nossas ações, nosso karma. As lagartas e os pés de feijão, são o karma que adquirimos de outras vidas.

    Então, o que renasce? A nossa terra renasce, ou seja, ela continua do jeito que a deixamos, mas alguém diferente toma possa dela e assume os efeitos que deixamos lá, tomando suas próprias decisões, baseados em seus próprios julgamentos. Sendo que os resultados das ações desse novo proprietário irá modificar a terra para o próximo dono.

    O que renasce é o resultado de nossas ações, pensamentos e palavras.

    Espero poder ter ajudado!

    Namo Amida Butsu!

    Rev. Mauricio Hondaku

  • Posts antigos

    Vimala: a antiga cortesã (Thig 5.2)

    Gostaria de compartilhar hoje com os leitores deste site um poema do Therigatha, livro feito pelas primeiras monjas da tradição theravada expressando a experiência destas mulheres santas, que realizaram o caminho do Buddha. Trata-se de um texto de uma antiga prostituta chamada Vimala. A tradução foi feita a partir da versão inglesa de Thanissaro Bhikkhu disponível no link: http://www.accesstoinsight.org/tipitaka/kn/thig/thig.05.02.than.html

    Vimala: a antiga cortesã  (Thig 5.2)

     

    Intoxicada com minha aparência

    figura, beleza e fama;

    orgulhosa devido à juventude

    eu desprezava as outras mulheres.

    Com este corpo adornado

    embelezado para iludir homens tolos,

    parada ficava em frente ao bordel:

    uma caçadora com a armadilha preparada.

    Eu exibia meus ornamentos,

    e revelava algo das partes íntimas.

    Desenvolvia minha magia multifacetada,

    rindo alto para a multidão.

     

    Hoje, envolvida pelo manto duplo,

    com a cabeça raspada,

    tendo perambulado a coletar alimento,

    sentada ao pé de uma árvore

    alcancei o estado de não-pensamento.

    Todos os laços – humanos e divinos – foram cortados.

    Tendo abandonado todas as impurezas,

    Os fogos se apagaram, sou livre.

  • Nichiren

    Enma-san e as oito grandes categorias de inferno

    O Budismo é um ensinamento sobre compaixão. Assim, existem muitos Budas, Bodhissatvas e divindades benevolentes. No entanto, há algumas pessoas que pensam, “Budismo é um ensinamento compassivo ainda que nós violemos os preceitos budistas não existe alguém para nos castigar”.

    O que você acha? Vamos pensar nisto em conjunto. Existe o ensino do Karma no budismo, muito embora não exista qualquer um que aplique punições. Como você sabe, “Karma” é a “Lei de Causa e Efeito”. Se você faz coisas boas, a virtude irá voltar para você e sua família através de bons efeitos. Se você faz coisas ruins, o castigo não vai retornar apenas para você, mas também para sua família. As rodas do Karma giram permanentemente você sabendo ou não. Às vezes, a retribuição não é causada apenas pelo seu Karma, mas também de seus familiares, parentes ou ancestrais. Você herda tudo, coisas boas e coisas más. Se a herança é má, ela vai trazer um monte de problemas para nós. Assim, embora Buda não aplique um castigo sobre você, o nosso próprio mau Karma irá nós castigar durante muito tempo. Portanto, o budismo é o ensino para retirar o nosso mau Karma e transformar a nossa vida em uma vida feliz. Nichiren Shonin disse, “Nossos vícios ou virtudes do passado podem ser vistos no presente; nosso futuro pode ser visto nas nossas ações presentes.”

    Na verdade, a maioria dos Budas, Deidades e Bodhissatvas no budismo são compassivos mas há um deus que é muito temeroso. As pessoas que conhecem, sabem do “Enma, o Grande”, o Rei do Inferno. Ele é comumente chamado de “Enma-san”. Ele que determina severamente a sentença sobre o falecido que cometeu erros ou deu problemas para os outros e então os manda para o inferno. Enma-san é muito popular como um temeroso deus. No Japão, houve um costume de dar broncas perversas em crianças. Quando uma criança mentia, os seus pais lhe davam uma bronca e diziam, “Sua língua mentirosa será puxada para fora por Enma-san!”, Ou quando uma criança foi malvada, “Enma-san vai pegar você e te levar para o inferno”. Lembro-me que na minha infância, eu temia muito a história de Enma-san. Enma-san é um símbolo de um deus não apenas muito assustador para as crianças, mas também para os adultos.

    Nichiren Shonin disse: “Em sua vida fugaz, você se apega aos prazeres efêmeros dia e noite e gasta todos os seus dias em vão. Você não se importa em reverenciar o Buda, os ensinamentos e com as orações por seus pais e avós. Você gasta todos os dias inutilmente no trabalho rotineiro, sem qualquer fé. Após a morte como você irá se desculpar pela sua vida diante de Enma, o Rei do Inferno? Como você vai chegar ao pacífico mundo de Buda através da travessia pelo mar profundo dos sofrimentos?”.

    Enma-san é original da Índia e em sânscrito chama-se “Yama-Raja”. Ele é o rei do Inferno e é como o Gerente Geral no submundo, julgando o comportamento dos falecidos quando eles estavam vivos e julgando para que mundo deverá ir o falecido – Inferno, Gaki, Mundo Real ou a Terra Pura do Monte Sagrado da Águia. Sua aparência: Ele tem uma cara irada vermelha, seus olhos são grandes e brilham severamente, o nariz dele é grande e tem uma barba negra espessa. Seu corpo é grande e forte. Ele veste uma túnica vermelha e uma coroa sobre sua cabeça. Ele tem um espesso cetro na mão direita e julga o falecido com esse cetro em seu tribunal. No tribunal, há dois assustadores demônios que são seus assistentes, vermelho e azul, atrás dele como guardas do inferno.

    Eles que trazem o falecido até o tribunal de Enma para o julgamento e após o julgamento amarram o falecido com uma corda e o arrastam os presos condenados ao inferno Enma-san julga os falecidos rigorosamente e com igualdade utilizando um espelho de cristal e em suas anotações está escrito muito detalhadamente o comportamento do falecido desde o nascimento. Ele julga seu comportamento parte por parte, de acordo com as suas anotações. Se a pessoa falecida diz uma mentira ou dá uma desculpa à Enma-san, em seguida o espelho de cristal ao lado dele mostra a verdade, exatamente como a pessoa fez durante toda a sua vida, como em um vídeo. Depois, como castigo, os demônios abrem a boca do pecador e puxam sua língua de forma categórica. Portanto, Enma-san um símbolo de medo para crianças assim como para adultos.

    Há oito grandes categorias de inferno e as torturas que Enma-san escolhe adequada para o falecido determinam para qual inferno que ele irá. As penas dos falecidos, mesmo os que cometeram a mesma infração, baseia-se na forma como eles foram cruéis ou ruins para os outros seres.

    1 Inferno Tokatsu (Inferno de Regeneração)

    O primeiro dos oito principais infernos é chamado de ” Inferno Tokatsu ” e está localizado 1000 yojanas (um yojanas: 7 milhas) abaixo deste mundo. Os pecadores que se enquadram nesse inferno odeiam uns aos outros e lutam como cães contra macacos não importando quando eles se encontram. Com unhas de ferro, brigam uns com os outros causando sangramento e lesões na pele, até que nada além de esqueletos permaneçam. Ou, eles são espancados até o inferno por guardas com barras de ferro até que seu corpo inteiro da cabeça aos pés seja triturado em partículas de areia, ou cortado por uma espada afiada em pedaços pequenos. Após estarem moribundos de tais sofrimentos insuportáveis como esses, eles serão regenerados e submetidos a estes tratamentos cruéis novamente. Como a causa cármica da queda para este inferno está quem abusou uma mulher, filhos, esposo e /ou animal ou matou um ser vivo. Se ele matou mesmo uma pequena criatura, como uma toupeira, formiga, mosquito ou mutuca; ele vai cair nesse inferno sem falhar a menos que se arrependa. Depois de ele se arrepender de cometer este crime, se cometer o mesmo crime novamente, nunca será perdoado, mesmo que se arrependa novamente.

    2 Inferno Kokujo (Inferno de Cordas Negras)

    O segundo dos oito principais infernos, ” Inferno Kokujo “, está localizado abaixo do inferno Tokatsu. Neste inferno, os guardas do inferno agarram o falecido, empurra-o no chão quente de ferro, fazem uma linha sobre o corpo do pecador com uma corda de ferro quente, e cortam e raspam o corpo quente com portinholas de ferro ou serram os seus membros ao longo da linha. Além disso, há enormes montanhas de ferro de ambos os lados do inferno. Eles erguer bandeiras de ferro no topo de cada montanha, esticam uma corda de ferro entre os dois pavilhões e forçam o pecador a caminhar na corda transportando peso ou ferro. Se cair da corda, o corpo do pecador é quebrado em pedaços. Caso contrário eles são cozidos em panelas de ferro. O sofrimento dessas torturas é dez vezes mais severo do que o inferno Tokatsu. Aqueles que cometeram o crime de homicídio, bem como roubo, o adultério e o suicídio vão cair nessa fogueira.

    3 Inferno Shugo (Inferno do esmagamento)

    O terceiro dos oito principais infernos é o ” Inferno Shugo”, que está localizado sob o Kokujo. Aqui muitos pares de Montanhas de Ferro estão viradas umas para as outras. Guardas do inferno com cabeças de vaca e cabeças de cavalo, armados com paus perseguem o pecador entre as montanhas. Em seguida, os pares de Montanhas Ferro aproximam-se, esmagando o pecador e inundando a Terra com sangue. A causa cármicas da queda neste inferno é cometer o crime de adultério, ou seja, ter relações sexuais com a esposa (ou marido) de outra pessoa. Existe uma floresta de espadas: uma linda mulher nua (ou homem) está em cima das árvores de espadas, assim quando os pecadores vêem a mulher, eles se apressam para subir ao topo, mas as folhas são como facas finas, e sua pele e carne é cortada e rasgada. Apesar de chegarem ao topo sangrando a mulher está agora em embaixo no pé das árvores e os seduz dizendo-lhes: “Por que você não vai vir pra mim?” Eles não podem interromper a rotina e não podem despertar para o fato de que o seu desejo sexual só gera mais tortura. Eles continuam se atormentando pela rotina de subidas e descidas até que nada além de seu esqueleto reste.

    4 Inferno Kyokan (Inferno de lamentações)

    Este inferno é o quarto, chamado ” Inferno Kyokan “, localizado sob o inferno Shugo. Os Guardas do inferno gritam em terríveis vozes, disparando flechas contra os pecadores. Eles também atacam as cabeças dos pecadores com barras de ferro, forçando-os a correr no chão quente de ferro ou os queima em uma grelha quente de ferro, transformando-os ao longo de muitas vezes. Ou eles compulsivamente derramam cobre líquido em ebulição na boca dos pecadores, para que o intestino ardente pingue para baixo instantaneamente. Desta forma, os Guardas atormentam os pecadores até os seus corpos derreterem e desaparecem, mas eles logo renascem outra vez para continuar o interminável tormento. Aqueles que cometem o crime de ingerir produtos tóxicos, o crime de homicídio, roubo, mentira e adultério vão cair nesse inferno.

    5 Inferno Dai-Kyokan (Inferno de Grandes Lamentações)

    O quinto inferno é o “Inferno Dai-Kyokan”, localizado abaixo do inferno Kyokan. O tormento neste inferno é semelhante ao inferno Kyokan, mas dez vezes mais severo do que o inferno acima. Aqueles que cometem o crime de dizer mentiras ao lado da sepultura, bem como crimes de homicídio, roubo, adultério e ingerir tóxicos vão cair nesse inferno. A língua dos pecadores é furada através da sua mandíbula com espetos de ferro quente, mas eles não conseguem falar qualquer palavra ou até mesmo gritar. O mesmo processo é feito para os seus olhos, enquanto os Guardas do inferno estão cantarolando “Você causou tormento por suas mentiras”.

    6 Inferno Shonetsu (Inferno das paixões ardentes)

    O sexto dos oito principais infernos é o “Inferno Shonetsu”, que está localizado abaixo do inferno Dai-Kyokan. Existem vários tipos de sofrimento nesse inferno. Colocado em Jambudvipa (o mundo), uma pequena chama de fogo deste inferno iria queimar tudo completamente instantaneamente, isso para não falar dos corpos dos pecadores, que são tão suaves como o algodão. A intensidade dos incêndios nos cinco infernos acima mencionados é parecida com neve. Os Guardas do inferno lançam os pecadores sobre uma grande placa de ferro aquecida, torra e sacode os corpos dos pecadores, ou coloca uma espada no pecador através do ânus até que saia através de sua cabeça e do corpo. Por fim, põem os pecadores em um caldeirão e os deixa ferver até que o corpo se derreta. Os pecadores que se enquadram neste inferno são os do falso ponto de vista, aqueles que não acreditam no princípio da causalidade e que insistem, por exemplo, que as pessoas que morrem de fome renascerão no céu. Também caem nesse inferno aqueles que cometeram os erros do matar, roubar, cometer adultério, ingerir tóxicos e mentir.

    7 Inferno Dai-Shonetsu (Grande Inferno das Paixões Ardentes)

    “Inferno Dai-Shonetsu”, o sétimo dos oito principais infernos, está localizado abaixo do inferno Shonetsu. No entanto, o tormento neste inferno é dez vezes mais grave do que todos os tormentos dos seis infernos que foram mencionados acima combinados. Os pecadores são forçados a assistir às cenas horríveis deste inferno antes de serem mandados para lá. Os Guardas do inferno agarram os pecadores pelo pescoço enquanto estão chorando, gritando e em pânico, e os arrastam para o inferno. Eles chegam a um vale em chamas, e os Guardas do inferno tiram a pele dos pecadores com cuidado e com uma boa espada e espalham as peles e corpos, em conjunto, no solo ardente e despejam ferro fundido fervente sobre eles. Os Guardas do inferno continuam a repreender os pecadores, empurram-os para o vale e, em seguida, as chamas irrompem juntamente com o eco dos gritos dos pecadores. Aqueles que cometem o carma de violar uma monja que observa o preceito da pureza, em adição ao grave carma de matar, roubar, cometer adultério; ingerir tóxicos, mentir, manter uma visão falsa e ferir fiéis budistas vão cair nesse inferno.

    8 Inferno Dai-Avici (Grande Inferno Avici)

    O último dos oito principais infernos, “Inferno Dai-Avici”, também é chamado de “Inferno dos Incessantes Sofrimentos”, porque o falecido neste inferno sofre de dores intermináveis. O extremo tormento deste inferno está longe de descrição exceto de que é 1000 vezes mais duro do que o sofrimento dos sete maiores infernos ou pior que todos os sofrimentos de qualquer lugar combinados. O sofrimento é tal que os pecadores no Inferno Dai-Shonetsu (7º Inferno) parecem como se fossem seres celestiais brincando no céu. O tormento desse inferno é demasiadamente horrível para descrever em detalhes, você pode ficar doente e vomitar. Falando das causas cármicas, aqueles que cometem as cinco depravações caem nesse inferno. As depravações são (1) assassinar um pai, (2) Assassinar uma mãe, (3) Matar um sacerdote (4) Fazer o corpo de Buda sangrar, e (5) causar a desunião ou a destruição da Sangha, ou da Ordem Budista. Difamadores do Verdadeiro Darma também irão cair nesse “Hobo”.

    Nichiren Shonin disse:

    “Ninguém no mundo, incluindo eu próprio, pensa em si mesmo caindo em um dois oito principais infernos. Enquanto alguém fala de “ir para o inferno”, não acredita em seu coração que ele mesmo irá para o inferno. Mesmo budistas, se clérigos ou leigos, homens ou mulheres, que cometem crimes graves, serão enviados ao inferno, embora eles não tenham medo do castigo. Alguns põem fé em tais Bodissatvas como “Jizo”: Bodhisattva Repositório da Terra; invocam tais Budas como “Amitabha”: o Buda da Vida Infinita. Essem budistas acreditam com confiança: “Tenho tanto mérito acumulado que eu nunca vou cair no inferno”. Estudiosos de várias escolas do budismo acreditam firmemente na sua própria compreensão intelectual, e eles não estão com medo de cometer os erros que irão enviá-los para o inferno. Aqueles que crêem em Budas e Bodissatvas, porém, realmente não põem fé em si. Existe um mundo de diferenças entre a sua fé em Budas e Bodissatvas e seu amor pelos seus próprios filhos ou cônjuges e respeito por seus pais ou pelo seu Lorde. Portanto, é uma falsa visão da gente de hoje que crêem que eles nunca vão para o inferno se eles imploram aos Budas e Bodissatvas por ajuda ou se estudam o ensino de cada escola budista. As pessoas deveriam levar isso em consideração e contemplar sobre o assunto. “

    “Após a morte, nós, os seres humanos temos de comparecer perante o tribunal Enma-san” disse certa vez um famoso médico idoso. Quando morrermos, somos levados para o tribunal de Enma. Em nossa frente, há uma balança. “Coloque em um lado (da balança) tudo que você tenha recebido de outras pessoas quando estava vivo”, afirma Enma-san em uma voz profunda. “Coloque do outro lado todas as coisas que deu a outras pessoas quando estava vivo”. Se as coisas que recebeu são mais pesadas que as que você deu, Enma-san vai julgar, “Você tem tirado partido da bondade das pessoas, sem dar aos outros. Como tal, tem de ir para o inferno.” Pelo contrário, se deu mais do que você recebeu, Enma-san irá lhe avisar de que pode entrar num mundo melhor ou no mundo pacífico de Buda. Assim, o médico mencionou sobre o tribunal de Enma e disse: “Eu acho que a minha contribuição não foi suficiente, gostaria de trabalhar mais para que o tratamento médico seja mais útil para os outros durante tanto tempo quanto eu puder, para o resto da minha vida”. Este médico salvou muitas vidas e executou uma reforma médica para melhorar constantemente o sistema médico, mas mesmo assim ele disse: “Ainda não é o suficiente”. Tais palavras nunca sairiam de uma mente egoísta ou arrogante.

    Enma-san é um deus muito assustador, mas ele não é assustador sem uma razão. Ele disciplina nossa mente egoísta e arrogante para ser humilde e compassiva, em outras palavras, Enma-san nos faz despertar a nossa natureza de Buda. Enma-san é não só um juiz, mas ele é como um treinador de seres humanos gananciosos e selvagens – “Seja humilde! Seja caridoso!”

    Nós seres humanos estamos vivos, ajudando uns aos outros ou sendo ajudados por outras pessoas. Isso mostra que os estilos de vida que são úteis para nós, assim como para outros, são um trabalho humano natural e uma vida absolutamente feliz. A fim de ter uma vida assim, temos de ser humildes e benevolentes a exemplo do médico idoso e, naturalmente, vamos perceber que o sentimento alegre aumenta quando damos mais do que recebemos. É uma maneira de viver para atingir a iluminação e é a via de Bodhisattva que o Sutra do Lótus prega para nós. Por favor, vamos tentar ser mais compreensivos com os outros na nossa vida quotidiana, de modo que você possa evitar ser culpado por Enma-san.

     

    Fonte: Nichiren Shu UK (http://www.nichiren-shu.org.uk/novdecnewsletter.html)