fbpx
  • Terra Pura

    Os Seis Paramitas e a Vida Cotidiana

    Em minha saga para estabelecer sobre o que iria falar com vocês lembrei-me que poderia transmitir aqui um pouco de minha experiência nestes quase 25 anos de estudos e buscas, porém também lembrei-me que Buda Shakyamuni nos transmitiu muitos ensinamentos, 84.000 dizem alguns, e um muito importante e que tem me norteado por muito tempo são os Seis Paramitas ou as Seis Perfeições, ensinamento referenciado sempre por vários mestres budistas, incluindo nosso fundador, Shinran Shonin e é tema de uma das comemorações mais importantes de nosso calendário, O-Higan. Então vamos tentar conectar tudo isso, começando pelo começo.

    Deixem-me contar um pouco de minha saga pessoal na tentativa de atravessar para a outra margem, nesses praticamente 27 anos de estudos e dúvidas, muitas dúvidas, sobre o Budismo. Nasci numa família católica pouco praticante, há 35 anos, mas desde cedo sempre me intriguei com assuntos metafísicos e também senti uma grande atração por assuntos orientais tanto a cultura como religião. Tendo crescido num ambiente católico, com 13 anos fui fazer um retiro cristão e comecei a freqüentar uma comunidade de jovens e a estudar religião em reuniões semanais. Nesta época as dúvidas floresceram de maneira contundente e comecei a analisar os aspectos do Catolicismo por uma via mais concreta e menos dogmática. Neste mesmo período comprei um livro quase que por acaso numa livraria já fechada em São Paulo. Tal livro chama-se “Introdução ao Zen Budismo” do Dr. Suzuki que depois vim a descobrir que foi o primeiro livro de muitos budistas brasileiros e americanos. Não se bem quanto aos outros, mas eu não entendi nada do livro naquela época e mesmo hoje ainda não compreendo muito, podem ter certeza.

    Mas uma das poucas partes que entendi explicava sobre a condição humana presa num ciclo incessante de renascimentos, direcionado pelos resultados das ações de cada pessoa e como esses resultados poderiam afetar a vida do indivíduo e de todo os sistema social e natural que o cerca. Este foi meu ponto de partida na tentativa de encontrar respostas para minhas fortes indagações metafísicas e espirituais. Nesta fase da minha vida e mesmo na atual, a história de vida de Buda Shakyamuni sempre foi uma referência para mim, pois ele foi um jovem, um adolescente, assoberbado de dúvidas e durante toda sua juventude e parte de sua via adulta procurou respostas em todos os cantos. Creio que esta parte inicial da vida de Buda não foi muito diferente da minha ou da de vocês… a não ser pelos 3 palácios magníficos que ele tinha!!!

    A partir deste livro comecei a estudar mais e mais e comecei a praticar também num templo tibetano da escola Nyingma em São Paulo, depois indo para um templo Ch´an, no qual comecei a ensinar o Dharma para pessoas iniciantes que nos buscavam. Foi nesta época que entrei em contato com a doutrina da Terra Pura primeiro chinesa e depois japonesa, o que me convenceu ser uma doutrina aplicável a qualquer estilo de vida e a qualquer idade, não havendo limitadores de lugar, tempo ou condição social para que se possa praticar, afinal de contas para recitar o Nembutsu somente precisamos conhecer as sílabas, pois mesmo um mudo ou um cego podem assim fazê-lo. Diante de um conhecimento um pouco maior desta doutrina, me convenci que era uma doutrina definitiva, coerente e altamente fácil de ser transmitida, embora, para as mentes ocidentais, algumas vezes difícil de ser compreendida por causa da mente cristã que permeia a sociedade ocidental.

    Neste meio tempo, me casei com uma pessoa que conheci naquela comunidade cristã e tenho hoje duas filhas. Todas, incluindo minha esposa, budistas. Creio que somos uma das primeiras famílias budistas brasileiras de pais convertidos, com filhos que nasceram budistas e isso nos dá uma responsabilidade dobrada pois temos a obrigação de passarmos para nossas filhas as bases da religião de nossa família, desde os conceitos, as práticas e principalmente a ética.

    Neste período como budista, pude verificar que muitas perguntas são recorrentes indagadas por brasileiros e até mesmo por integrantes das comunidades orientais. Acho que a campeã é a famosa “como posso ser budista e aplicar os conceitos desta religião na minha vida diária?” e outra muito importante é “como podemos transmitir o Dharma para um jovem ou uma criança?”. São perguntas que necessitam de dois lados para serem respondidos: um deles é o que os professores, monges e Comunidade podem proporcionar e outra é o que as pessoas estão dispostas ou vêem valiosos para suas vidas. É sempre bom lembrar que o Budismo nunca teve um caráter proselitista no mundo, ou seja, nunca foi atrás de adeptos, nem fica no farol pregando, competindo com malabaristas mirins.

    Acho também que a primeira parte precisa ser comunicada sobre como a segunda quer ser abordada e que tipo e como querem receber mensagens sobre o Budismo. Poderia dizer também “Se quiserem receber”, mas acho que várias dezenas de jovens dos quais vários viajaram mais de 500 quilômetros para estar aqui, devem estar alguma coisa interessados no Congresso e sobre o que temos a dizer, do que simplesmente a integração e descontração que o evento pode proporcionar. Assim, convoco a todos para um diálogo franco com as lideranças de nossas comunidades para que possamos alinhar as expectativas de vocês com as capacidades atuais e futuras do Hongwanji no Brasil.
    No que tange a segunda parte, ou seja, vocês, jovens do Hongwanji gostaria de lembrá-los de uma boa parábola japonesa: “A Rã que vive no poço”.

    Havia uma rã que vivia num poço, próximo ao oceano que ali havia nascido e dali nunca tinha saído pois não conseguia saltar tão alto. Mesmo porque ela desconhecia o mundo ao redor do poço pois, como nunca o havia visto, para ela não havia nada além das paredes de pedra de seu poço. Desta forma, ela ignorava o imenso oceano ao seu redor e que dele somente ouvia o seu som, ignorando por completo o que realmente era. Ela não só ignorava o oceano, ou seja, a condição do mundo onde vivia, mas também ignorava sua própria condição de “rã presa no poço” e para descobrir que vivia num poço e que havia um oceano a poucos metros ela teria que sair dali.

    Mas um dia uma garça começou a sobrevoar o poço e viu a pequenina rã ali a coaxar (rã coaxa?) . Pousou na borda do poço e perguntou a rã porque ela vivia num poço, tendo um oceano tão grande a seu dispor do lado de fora. Surpresa com a pergunta do pássaro, ela reagiu confusa dizendo que o pássaro de nada sabia e que o poço era seu mundo seguro e confortável e que nada poderia existir além dele.

    Diante da reação da rã, a garça voa para longe, deixando-a. Depois de algum tempo, a rã reflete sobre o que a garça disse e começa a questionar se realmente não haveria um mundo além das paredes de pedra do poço e que talvez esteja equivocado e que a história daquele pássaro poderia ter algum fundamento. Na outra vez que o pássaro por lá sobrevoou, a rã o chamou e desculpando-se pela atitude na vez anterior pediu que a garça a levasse para um passeio em suas costas. A garça, muito prestativa, concorda com o pedido, colocando a pequena rã em suas costas e alçou vôo. A certa altura a rãzinha olha para baixo e vê seu pequeno poço, essa compreende quem era, onde morava e que havia um oceano imenso e desconhecido ao lado de sua casa que nunca havia visto. Ou seja, a pequena rã experimentou duas realizações simultâneas, quem era e onde estava inserida, dissipando suas dúvidas existenciais. Ela vê como era pequeno seu poço e como era imenso o oceano, alguns autores dizem que esta parábola demonstra a condição humana antes de ter contato com o Budismo.

    As pessoas se vêem como entes isolados do mundo achando que suas atitudes se encerram em si próprios e desconhecem suas condições, seus poços onde vivem e também desconhecem o oceano ali ao lado, ou seja a grande sabedoria búdica que está ao nosso dispor.

    Me espelho muito nesta rã e creio que muitos de vocês também, pois antes de termos um mínimo contato com o Dharma, estamos na mesma condição do poço e basta que uma pequena fagulha nos atinja para que uma interminável lista de dúvidas se forme sobre nosso poço e sobre a possibilidade de haver um oceano nos rodeando.

    Mas onde podemos encontrar uma garça para com a qual possamos alçar vôo? Eu vejo que temos muitas garças ao nosso redor, embora tenhamos o péssimo hábito de enxotar esses pássaros de nossas vidas. As primeiras garças que vejo em nossas vidas são nossos pais. Vocês já perceberam a quantidade de conselhos que eles nos dão e nós ignoramos e muito tempo depois descobrimos que eles tinham razão? Tá bom, tá bom, alguns não, mas a maioria sim. Pelo menos tenho certeza que aqueles relacionados com o Dharma são certos e diretos. Mas nós enxotamos eles, não? “Sai do meu quarto que você não sabe nada!”; “Os tempos mudaram”; ou ainda, creio que a mais freqüente desde o meu tempo: “Não enche o saco, pô!”.

    Mas por mais velhos e antiquados que nossos pais possam ser o Budismo, o Nembutsu, a Terra Pura são atemporais, podemos falar deles por anos e anos e sempre serão atuais. O que talvez tenhamos que moldar é a maneira como fazemos isso. Os exemplos a serem usados, a forma de se falar deve se moldar mas sofrimento será sofrimento e karma será karma até o fim dos tempos.

    E continuando a falar em garça, digo que as outras que temos são os “bons companheiros”, ou seja, os monges e professores de Dharma que cruzam nossas vidas e a quem também pouco ouvimos, só não os mandamos não encher o saco, mas até acho que alguns pensam assim. Mas são das bocas dessas pessoas que o Dharma flui e que podemos, muitas vezes entrar em contato com mecanismos para compreender nossa verdadeira condição humana e do nosso mundo ao redor. Cometemos o erro de achar que os monges nos darão respostas prontas e imediatas para nossas inquietações. E nos comportando como rãs que enxotam as garças, ignoramos suas palavras e seus conselhos.

    Então para podemos alinhar nossas expectativas com as capacidades de aprendizado que nos são oferecidas temos que aceitar nossas condições ranárias e iniciarmos nossa saída do poço e isso significa, no mínimo, um pouco de confiança mútua. Costumo pautar, ou pelo menos tento, minhas ações por alguns itens simples ensinados por Buda e realçados por vários mestres budistas. Esse é um ponto para começarmos a falar sobre Budismo em nossas vidas e como encaixa-lo seria analisarmos as Seis Perfeições que nos foram ensinadas por Buda como uma maneira de se viver o Budismo em nossas vidas. São elas a generosidade (Dana), a ética (Shila), a paciência, que eu preciso aprender a ter (Kshanti), o esforço (Virya), a concentração (Dhyana) e a sabedoria (Prajna). Esses paramitas ou Perfeições ou higan, em japonês são os meios pelos quais o Buda nos guia da margem mundana do mundo para a outra margem da Terra Pura. Este conceito de transposição de margens deu origem ao O-Higan cerimônia na qual expressamos nossa gratidão por termos sido despertados pela Sabedoria e Compaixão Infinita de Buda Amida, tal como a rã foi desperta pela garça.

    Das Seis Perfeições acho que o mundo e principalmente nosso país recentemente carece de “Shila”, ética, para que nossas ações sejam carregadas de alinhamento moral e possam ser direcionadas segundos princípios de Prajna, ou seja, sabedoria, a Sabedoria Infinita de Buda. Agindo com ética já é um grande passo para vivermos o Budismo em nossas vidas pois a ética garante que nossa ações sejam retas. Se a cada vez que temos que tomar uma ação seja em relação aos amigos, família, escola… que seja embasado nas ética que Buda nos apresenta e é resumida pelos outros paramitas, paciência, concentração, esforço, generosidade e sabedoria.
    A paciência nos ajuda a pensar mais antes de agir, a avaliar a situação usando a sabedoria, para entendermos a situação presente e futura e as conseqüências dos resultados daquilo que pensamos e executamos.

    Em termos de sabedoria, esta se mostra indispensável para vivermos de forma ética e serena; é a partir da Sabedoria Infinita de Amida que recebemos a Luz do Outro Poder que nos impele para a outra margem, então é através dela que pautamos as análises da vida e a compreensão da nossa condição humana. A aquisição da sabedoria está mais associada a ouvir o Dharma e verificar a transformação que esta atitude nos traz do que a sabedoria gramática, aquela contida em livros. A Sabedoria Infinita de Buda Amida é vivência, não teoria; é realização e não pesquisa; é despertar e não dormir; e é desta forma que vamos atravessando o oceano de nossas vidas. Se aceitarmo-nos como somos e como estamos inseridos no mundo, entendendo que a cada atitude nossa afetamos o mundo, estaremos utilizando nossa sabedoria.

    A generosidade é um exercício de altruísmo, mas não necessariamente uma doação material, mas uma doação moral e ética. Um posicionamento livre de troca e julgamento. Confundimos muito generosidade com esmolas e não há coisa mais antagônica. Generosidade está relacionado com compaixão, com eliminação do ego individual e permeia nosso modo de vida. Ser generoso é ser amigo na última concepção da palavra, é ser filho, irmão, sem pedir algo em troca. Eu sei, agora muitos estão pensando: “Ah! É muito fácil falar!”. Mas se não começarmos em algum lugar com algum esforço (Virya) que é um outro paramita, jamais poderemos viver no Nembutsu, porque nosso esforço próprio, nosso Próprio Poder, deverá ser suplantado pelo Outro Poder, o Poder de Amida. O esforço é um esforço puro, sem julgamento e expectativa de troca. É o vôo da rã, é a vontade sair do poço e tirar as dúvidas, pois essas dúvidas que nos surgem são dissipadas quando nos sentimos compelidos a voar nas costas das garças. Esse esforço de voar, essa vontade é a manifestação do Outro Poder.

    A concentração nos dá a virtude de focar para compreender, focar para transformar. Quando ouvimos o Dharma e nos concentramos nas palavras daqueles que nos falam e permitimos que tais palavras destruam preconceitos e conceitos errôneos, tal concentração está contribuindo para nossa sabedoria e ao desenvolvimento de nossa ética também. A concentração é desenvolvida de formas diferentes em várias escolas budistas. No Jodo Shinshu, nossa concentração é focada na contemplação do Dharma, dos Sutras, Gathas e as cartas de nossos mestres, pois é através deles que poderemos experenciar a transformação necessária para atingirmos a outra margem, embalados pelo barco da Compaixão Infinita de Amida.

    Depois desse pequeno passeio pelos paramitas, voltamos ao primeiro que descrevi que é justamente a ética. Uma juventude ética vai gerar um futuro brilhante para nossa sociedade. Pode parecer piegas, mas olhem para situação político-social de nosso país. Ela foi gerada por condições que uma juventude gerou um dia, no passado. Isso que vemos é uma conseqüência natural de ações errôneas do passado e como sabemos não podemos mudar as conseqüências, os efeitos, temos que alterar as causas e condições. Se somos impelidos a agir com essas Perfeições, mesmo que num contexto diminuto, já estamos contribuindo para uma situação melhor para nossa sociedade e país. Não nos basta cobrar, a execução é ponto crucial para a transformação. E executar é agir e para agir temos que o fazer com no mínimo sabedoria e ética para que o efeito seja benéfico e duradouro.

    Para mim recitar o Nembutsu é um agradecimento por ser um rã (e das grandes no meu caso!) e uma certeza que estou voando e que consegui ver o Oceano. Acho que tive várias garças em minha vida e tendo a ver todas as pessoas e situações que me cercam como garças, nas quais pegarei carona várias vezes. É certo que o cantinho do poço é mais gostoso e confortável, mas afinal andamos centenas de quilômetros para estar aqui e isso também já é um baita esforço, que com certeza nos foi impelido por uma Sabedoria além de nossas vontades egóicas. Sendo assim só me resta juntar as mãos e recitar… Namu Amida Butsu! Namu Amida Butsu! Namu Amida Butsu!

    Rev. Mauricio Hondaku

    (palestra proferida no Congresso de Jovens de 2006)

  • Zen

    O possível e o impossível

    Quando tomamos os votos e os praticamos sinceramente, compreendemos que somos incompletos.

    A certa altura, podemos amadurecer a decisão de “formalizar” nossa prática, escolhendo um professor de quem receber ensinamentos seguros, aos quais toda a nossa atenção será dedicada. Para aqueles de nós que não se decidiram pelo caminho monástico, é hora então de tomarmos refúgio nos três tesouros (Buddha, Dharma e Sangha) numa cerimônia que no zen é chamada de jukai ou zaike tokudo – 在家得度. Nessa oportunidade, há um grande espírito de comprometimento e fazemos vários votos solenes. Em sua síntese, tais votos dão conta de que adotamos uma meta infinita e que nos empenharemos até a sua conclusão, sem concessões, sem tentar reduzi-la ao racional, à nossa lógica. Um dos votos, por exemplo, está centrado na ideia de que não devemos praticar para nossa exclusiva compreensão e liberação (da ignorância), mas que deveríamos dedicar todo nosso esforço para a liberação de nada menos que todos os seres existentes. Aqui, se exigirmos uma resposta à pergunta “é possível ou não?” antes de seguirmos adiante, talvez nunca avancemos mais um passo sequer. Por outro lado, talvez motivados pela pouca experiência ou por uma “fé apressada”, podemos adotar tal objetivo sem sequer pestanejar, certos de que daremos conta, não importa quanto tempo seja necessário. Talvez (e repito, talvez) os votos tenham também por “função” nos abrir os olhos para nossas limitações. O texto que segue, extraído de “Sōtō Zen an Introduction to zazen”, capítulo 1, de Shohaku Okumura-sensei, em tradução livre, aborda estas reflexões.

    “Quando estudamos o eu e compreendemos que estamos interconectados com todos os seres, quando nos tornamos discípulos de Buddha, nós nos arrependemos por todo o karma prejudicial que fizemos no passado oriundo de nosso corpo, fala e pensamento. Nós temos de praticar o arrependimento momento a momento sempre que nos virmos nos desviando do saudável modo de vida.

    Vez após outra nós tomamos refúgio no Buddha, Dharma e Sangha e renovamos os quatro votos do bodhisattva:

      Seres são incontáveis; faço voto de libertá-los.
      Delusões são inexauríveis; faço voto de findá-las.
      Portais do Dharma são ilimitados; faço voto de penetrá-los.
      O caminho de Buddha é insuperável; faço voto de realizá-lo.

    Estes votos nos guiam no caminho de Buddha. Damos um pequeno passo de cada vez e continuamos a achar que nossa prática é incompleta. Estes votos não têm fim. Seres sencientes são inumeráveis, então não podemos salvá-los todos. Delusões são inexauríveis, por isso nunca as eliminamos todas completamente. Portais do Dharma são ilimitados, então nós nunca podemos adentrá-los todos. O caminho de Buddha é insuperável, então, nossa prática continua sem fim. Quando tomamos os votos e os praticamos sinceramente, compreendemos que somos incompletos.

    Em outro sentido, ao tomar estes votos, nós decidimos não atravessar o rio até a outra margem (da liberação). Fazemos o voto de sermos o último a ali chegar. Esta é a razão por que os chamamos votos de bodhisattva. Se todas as pessoas são bodhisattvas, então não haverá ninguém na outra margem. Todos os bodhisattvas trabalham nesta margem a qual chamamos samsara. Usando nosso corpo e mente na prática, tentamos tornar este mesmo mundo na outra margem. E porque corpo e mente têm suas limitações, nossa prática também tem as suas.

    Esta é a razão por que temos de praticar o arrependimento. Apenas recitar os versos de arrependimento nas cerimônias não é o bastante. Embora tomemos refúgio em Budha, Dharma e Sangha, somos negligentes. Ainda que saibamos que vivemos com todos os seres em uma rede de originação interdependente, nós frequentemente nos desviamos, e somos capturados em um fazer e pensar egocêntricos. Sempre que tenhamos consciência de nosso desvio do caminho apropriado, deveríamos apenas retornar à direção correta. Este retornar é importante.”

    Organização: Rodrigo Daien

  • Terra Pura

    Além do Ódio

    O ódio não pode ser extinto pelas chamas do ódio,
    Só com o perdão o ódio desaparece.

    Eu estava entrando no portão de um templo cercado por um belo jardim de verdes folhas primaveris, quando percebi essa inscrição no seu quadro de avisos. Enquanto parei em frente, lembrei-me de um incidente que havia lido no jornal. Uma mãe informada da prisão de um jovem delinqüente que havia assassinado seu filho a sangue frio, disse as seguintes palavras:

    Eu, mais do que qualquer pessoa, conheço o sofrimento de uma mãe que perdeu um filho. Basta que eu sofra sozinha tal desgosto. Imploro a vocês pelo bem da mãe dele, não punam este rapaz tão severamente.

    Ela defendia a tolerância ao assassino, a quem teria todo o direito de odiar plenamente. Naquele momento, lembrei-me claramente do forte impulso que tive de mostrar a ela minha gratidão após ler aquele artigo. Admirei-a por estar pronta a dizer algo desse tipo, neste mundo onde o ódio gera o ódio, onde as pessoas nunca cessam de ferir as outras, onde mesmo os gestos de amizade trazem uma conotação de malícia.

    Todavia, eu imaginei que houve para aquela mãe muitas noites de agonia e lágrimas derramadas por detrás daquelas palavras de perdão. Ela deve ter sentido ódio pelo assassino e também ressentimento em relação à família do mesmo.

    O próprio mundo deve ter escapado às suas amarguras. Entretanto, que palavras calorosas brotaram das suas lágrimas, do seu sofrimento, da sua exaustão! Essas palavras, provavelmente eram inesperadas, mesmo para ela, quando as pronunciou. E ainda, no momento em que as pronunciou, não há dúvidas de que aquela mãe sentiu uma grande paz e libertação. É exatamente por causa disso – que essas palavras são capazes de conter tanto significado para as pessoas onde quer que estejam.

    Nessas palavras profundas, o “gelo” do sofrimento eterno, causado pelo desejo e pelo ódio, dissolve-se e torna-se a “água” da virtude ilimitada que conforta e refresca o espírito do ser humano. Tal é a luz que emana do mundo da não-dualidade, que transforma o egoísmo intolerante em profunda compaixão. Isto nos traz à mente o seguinte poema do Mestre Shinran:

    Quando os rios do sofrimento deságuam
    no oceano da Grande Compaixão e Aspiração
    cuja luz brilha ilimitadamente em todas as direções,
    tudo submerge no grande oceano da Sabedoria.

    Rev. Takashi Hirose

    Sobre o autor

    Takashi  Hirose nasceu em 1924 em Kyoto, no Japão. Segundo filho de uma família de monges budistas, recebeu a ordenação aos 9 anos de idade. Em 1942, entrou para a Universidade Otani, em Kyoto, uma universidade budista ligada ao Templo Higashi Honganji. Finalmente, recebeu o seu doutorado em Budismo Shin e em 1960 começou sua carreira de professor universitário. De 1970 a 1975 ele licenciou-se e durante este período fez palestras de Budismo Shin, por todo o Japão. Em 1980 foi eleito Reitor da Universidade Otani. O Dr. Hirose dirige o Grupo de Estudos Monko-sha, que se ocupa de pesquisas de textos clássicos do Budismo Shin. Palestrante popular, o Dr. Hirose é também autor de vários livros e artigos sobre Budismo Shin.

  • Budismo Tibetano

    Procurando um caminho

    Quero compartilhar algumas ideias com aqueles que estão “procurando um caminho”.

    Cada pessoa encontra sua maneira de melhorar como indivíduo e eu posso dizer que encontrei um jeito que está funcionando pra mim. Após algum tempo quebrando a cara e correndo atrás de sonhos que lá na frente percebi não valerem a pena, principalmente os que dizem respeito a coisas materiais, acabei descobrindo que precisava encontrar um caminho.

    Criei uma pequena lista com alguns pontos interessantes que me ajudaram a encontrar o meu próprio caminho. Espero que algum deles possa te ajudar também.

    Busquei um caminho espiritual

    O ponto aqui não é a tradição espiritual “A” ou “B”, mas seguir algo mais elevado, que te faça bem. A melhor tradição espiritual é aquela onde você se sente à vontade, feliz e que faça sentido pra você. Acredito que todas as tradições espirituais são excelentes e convergem para o mesmo ponto: superação dos próprios obstáculos, bondade, amor e compaixão. Para mim a tradição que fez mais sentido foi o Budismo Tibetano.

    Aprendi a ser mais auto reflexivo

    Pensar em como você se comporta no dia-a-dia é muito importante, pois você começa a se dar conta do que está fazendo e para onde está indo com suas atitudes e sonhos. Quando comecei a refletir mais, isso me ajudou a perdoar as outras pessoas e a me perdoar também e, o mais interessante: ao perceber o que eu estava fazendo e pensando, fui me libertando de alguns condicionamentos e negatividades, justamente por entender como e quando eles surgiam na minha mente, já que eu passei a olhar para dentro, e não fora.

    Simplifiquei a vida

    Esse ponto foi bem interessante, pois percebi que quanto mais “coisas” temos, mais responsabilidade e menos liberdade possuímos. Já doei coisas que não uso mais, estou tentando consumir menos e, consequentemente, tenho menos preocupações. Ao invés de querer ser mais organizado, por que a gente não aprende a ter menos? Este é um processo lento, pois demanda disciplina e paciência.

    Mudei a postura de “carente” para a de “trazer benefício as pessoas”

    Eu já fui muito carente, me achava um coitadinho e sempre pensava que eram os outros que precisavam me convidar para fazer alguma coisa ou que deveriam me fazer feliz e o resultado disso é que ninguém quer por perto alguém que apenas “quer”, mas não faz por merecer. Depois de ler um artigo no blog “Não2 Não1”, do meu amigo Gustavo Gitti, titulado “Oferecer” (recomendo a vocês que o leiam), minha visão realmente mudou sobre este tema, a carência. Podemos até pensar que não somos carentes, mas em certo nível todo mundo é carente em relação a algo. Isso não diz respeito apenas aos relacionamentos, mas também quanto a “coisas”, percepções e sentimentos. Então, a questão é parar de ser carente e oferecer mais para as outras pessoas. Afinal, sempre temos algo a oferecer.

    Resumo:

    1. Busquei um caminho espiritual que fez sentido pra mim
    2. Aprendi a ser mais auto reflexivo
    3. Simplifiquei a vida
    4. Mudei a postura de “carente” para a de “trazer benefício as pessoas”

    Espero que minha experiência possa te ajudar de alguma maneira.

  • Nichiren

    Copiando o Sutra, a prática de Shakyo

    O Sutra do Lótus, o Sutra principal para budistas Nichiren, é bastante claro em suas instruções sobre como praticá-lo, ele nos diz especificamente em vários lugares ao longo do texto que devemos manter, ler, recitar, copiar, e ensinar o Sutra do Lótus. Alguns de vocês estão conscientes de que, como parte da nossa celebração de terceiro ano estamos coletando cópias escritas à mão do capítulo 21 do Sutra do Lótus. Outros de vocês, aqueles que começaram a frequentar nos últimos meses podem não estar cientes disso e por isso eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para falar um pouco sobre essa prática. Eu também gostaria de aproveitar esta oportunidade para falar um pouco sobre uma mulher budista famosa, a Imperatriz do Japão, Komyo. Antes de começar, gostaria de agradecer a Sallie Tisdale por seu livro que estou usando como referência nesta parte desta conversa sobre o Dharma. Sallie Tisdale é a autora de um livro intitulado, “Mulheres do Caminho; Descobrindo 2500 Anos de Sabedoria Budista.” Vários anos atrás, quando eu estava vivendo e treinamento em Portland, OR, tive a oportunidade de assistir a uma palestra que ela deu sobre o livro no Dharma Rain Zen Center, que era localizado a apenas alguns quarteirões do Templo de Portland da Nichiren Shu.

    Eu gostaria de compartilhar com você a dedicatória no início do livro. “Dedicado a todas as mulheres mais velhas, vendedoras de refresco, meninas, vendedoras de bolo de arroz, leigas, princesas, monjas errantes, cortesãs e deusas que infinitamente pregam o Dharma em inúmeras histórias e nunca são nomeadas.” Uma das muitas coisas pelas quais o Sutra do Lótus é notável é pela inclusão das mulheres no Sangha e sua igualdade com todos os outros na capacidade de atingir a iluminação. Há duas referências às mulheres alcançar a iluminação mencionadas no Sutra do Lótus. Sendo uma deles a famosa história da Filha do Rei Dragão que tornou-se iluminada sem esforços e outra é a previsão da futura Iluminação da mãe do Buda e de todas as monjas que ela representava. Estes foram pronunciamentos verdadeiramente revolucionários para aquele momento, quando se acreditava que as mulheres nunca poderiam alcançar a iluminação por elas possuírem as cinco impossibilidades. As mulheres têm sido quase universalmente relegadas ao status de segunda classe, ou seja, impuras.

    E, no entanto ao longo da história não só no budismo, mas em todas as religiões e culturas, encontramos inúmeros exemplos de ações exemplares e heroicas de mulheres, tanto como praticantes religiosos e como líderes culturais. Nichiren em uma famosa carta escreveu a uma mulher que tinha dúvidas sobre a prática do Sutra do Lótus, enquanto ela estava tendo seu ciclo menstrual. Ele aconselhou a ela que sob nenhuma circunstância deveria sentir que, devido à função biológica natural do corpo de uma mulher, ela deveria se separar do maravilhoso Dharma do Sutra do Lótus, e que a sociedade pode ter imposto algumas restrições a uma mulher em seu período menstrual, mas que o Buda não fez. Claro que tenho parafraseado e condensado muito aqui, mas o ponto de Nichiren estava enfatizando é que as mulheres não têm maior ou menor propensão para a iluminação do que os homens só porque são mulheres e, certamente, nem por causa da biologia de seus corpos. No livro de Sallie Tisdale ela tem um capítulo dedicado a uma mulher muito famosa na história do Sutra do Lótus, no Japão, a Imperatriz Komyo (701-760). A vida de Komyo aconteceu em um momento de transição na história japonesa e na história do budismo no Japão. Pouco antes de seu nascimento, o país chamado Yamato se tornou Nihon, ou Japão, ou seja, a “fonte do sol”.

    Durante esse tempo, o budismo tornou-se muito poderoso e influente no governo japonês, o avô de Komyo tinha sido um Nakatomi, a família que tradicionalmente realizava ritos xintoístas, enquanto os Fujiwaras eram os responsáveis pela administração do governo. O avô de Komyo recebeu o nome Fujiwara como um presente do imperador. Depois disso, o negócio da família tornou-se parte do governo, em vez da religião. Então, eles se tornaram budistas, porque o budismo foi parte da vida da corte. Em 710 Nara se tornou a primeira capital permanente do Japão, apesar de ter sido chamado Heijokyo, a Cidadela de Paz. Conforme o tempo passava, o budismo exerceu maior e maior controle e influência, ofuscando mesmo o Xintoísmo e de fato entrou no controle de muitos santuários xintoístas. Em 720 a mãe de Komyo se tornou uma monja budista em luto pela morte de seu marido. Sem entrar em todos os detalhes, deixe-me brevemente dizer que Komyo se tornou a imperatriz, não apenas porque ela era casada com o imperador, porque isso não foi um resultado automático do casamento.

    Quando Komyo se tornou a imperatriz ela teve algum poder real, e como a Sra. Tisdale relata em seu livro, ela começou a usá-lo. Komyo olhou à sua volta e viu o sofrimento do povo, a morte precoce das crianças, ela também havia perdido seu primeiro filho. Ela tinha um templo construído em honra daquela criança, o nome do templo era Kinshoji. Em seguida, ela estabeleceu o Hiden-in e Seyaku-in, instituições de caridade que deram remédios e alimentos para os pobres. Ela insistiu que o imperador Shomu, seu marido, construísse casas de passagem para que os trabalhadores em seu caminho para casa pudessem comer e descansar. De acordo com a história, um dia Komyo visitou sua mãe em uma ermida. Lá, ela viu uma cópia do Sutra do Lótus que sua mãe mesmo tinha feito. Sua mãe proclamou que ela tinha copiado ela mesma e que era uma prática maravilhosa. Komyo começou a copiar ela mesmo o Sutra do Lótus.

    Ela encomendou um balcão de sutra em madeira tingidos de caqui, com acessórios de bambu preto e dourado e estrutura de bronze, gravada com nuvens. Ela convidou sua governante para se juntar a ela, e então suas outras empregadas domésticas, e elas começaram a passar longas tardes sobre resmas de papel, praticando cada elaborado caractere chinês muitas vezes antes de transcrevê-los para o pergaminho. O Sutra do Lótus foi o trabalho de uma vida, uma prática maravilhosa, e ainda não o suficiente para explodir a devoção de Komyo. Ignorando muitos dos detalhes de Sallie Tisdale, logo Komyo fez seu marido, o imperador, praticar também e em seguida, ele emitiu decretos com o objetivo de encontrar copistas profissionais para também fazer o trabalho de copiar o Sutra do Lótus. A imperatriz Komyo é famosa na história japonesa, pelo seu apoio e devoção ao Sutra do Lótus. Pode-se dizer que seus esforços tenham sido muito úteis na propagação do Sutra do Lótus no início da história do budismo no Japão. Este é apenas um exemplo de fé e influência das mulheres na história do budismo e na propagação do Sutra do Lótus. É também um bom exemplo de um indivíduo realizar a prática meditativa de copiar o sutra como o Buda nos instrui.

    Eu sei que, para muitos o ato de copiar o Sutra do Lótus ou capítulos do Sutra é um pouco menos do que emocionante. Sei que alguns acham que a necessidade de escrever a mão cópias do Sutra é uma prática ultrapassada, com o advento de métodos modernos de reprodução. Inicialmente copiar o sutra tinha o propósito de propagação, especialmente antes do desenvolvimento de técnicas de impressão. Durante o tempo da Imperatriz Komyo era possível imprimir Sutras, os chineses já tinham inventado técnicas de impressão, embora os livros impressos fossem raros e caros. Mas a prática religiosa de copiar o sutra também é mais do que um meio de reprodução. É uma prática meditativa difícil e exigente que, por um lado cultiva disciplina, bem como a oportunidade de maior compreensão e apreciação de palavras de ouro do Buda. Nichiren declarou em diversas ocasiões que cada um dos caracteres do Sutra do Lótus era de fato um Buda dourado. Ele deu muita importância para que cada caractere, nenhum deles deveria ser considerado levianamente.

    O Sutra do Lótus é composto de 69.384 caracteres, de todos os caracteres que compõem o Sutra do Lótus, há menos de metade desse número de caracteres únicos, com alguns caracteres com duplo sentido ou o que significam muitas coisas diferentes. Assim você pode ver o poder e a beleza da escrita concisa que compõe o Sutra do Lótus. É verdade que muito se perde para nós quando se lê a tradução em Inglês, porque a nossa língua exige muitas outras palavras para conectar palavras do que o chinês. Mesmo as versões de língua japonesa são mais longas e não tão concisas ou compactas. Mesmo que grande parte se perca na tradução em Inglês nunca devemos considerar qualquer palavra insignificante no Sutra do Lótus.

    Então, copie-o para celebrar a beleza, a natureza concisa do ensino, e a oportunidade de abraçá-lo com toda a nossa vida enquanto concentradamente escreve com tinta no papel, assim como o Buda instrui. Lá fora, na frente do nosso templo, erigimos um Stupa dedicado ao Sutra do Lótus no qual está escrito o Odaimoku, ou o título sagrado do Sutra do Lótus, a essência de todo o ensinamento contido no Sutra. Também há uma passagem do capítulo 21, que proclama que qualquer lugar onde uma cópia deste sutra é mantida um Stupa deve ser erguido, porque é o lugar da iluminação de todos os seres.

    (…)

    Gostaria de encerrar esta conversa sobre o Dharma com palavras atribuídas à Imperatriz Komyo, do livro de Sallie Tisdale: “”Não podemos copiar rápido o bastante. Não há tempo suficiente em nossas vidas, em uma centena de vidas. Todos devem fazer isso para que todos possam ler os sutras.”” O imperador, em seguida, emitiu um decreto ordenando as províncias para erguer estátuas de Buda e copiar um capítulo do Sutra do Lótus. Poucos meses depois, a imperatriz disse ao imperador: “Não é o suficiente.””

    *tradução do texto “Copying the Sutra – Shakyo” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

  • Zen

    Mente de Principiante?

    Recentemente, tive a grata oportunidade de assistir a (mais) uma excelente palestra do prof. Joaquim Monteiro, com comentários de Isshin-sensei, realizada pela sangha irmã “Águas da Compaixão”. A palestra discorreu, dentre outros interessantíssimos assuntos, sobre um questionamento quanto ao emprego do vocábulo “principiante” (no original “beginner”) no best-seller “Mente Zen, Mente de Principiante”, do muito respeitado mestre zen Shunryū Suzuki-rōshi. Qualquer praticante zen já o leu. Alguns o lerão sempre.

    Aqui já se lança um questionamento que aprendemos ser pertinente, na realidade um problema que os especialistas julgam de difícil solução, qual seja, o das traduções de textos capitais para línguas que lhe são totalmente estranhas, muitas vezes até mesmo carentes de vocábulos equivalentes. Basta dizer que a universidade Stanford trabalha nas traduções de textos do mestre Dōgen (fundador da escola Sōtō Zen) e não publica novo material desde 2010! Segundo Isshin-sensei, há possibilidade de que os trabalhos sejam apresentados ao público concluídos e na forma impressa e que o projeto da Stanford não previsse a divulgação da totalidade da empreitada, mas apenas excertos. Saiba mais.

    Mas vamos ao texto: “Para os estudantes do Zen, o mais importante é não serem dualistas. Nossa “mente original” inclui em si todas as coisas. Ela é sempre rica e auto-suficiente. Você não deve perder esse estado mental auto-suficiente. Isto não significa uma mente fechada e sim, na verdade, uma mente vazia e alerta. Se sua mente está vazia, está pronta para qualquer coisa; ela está aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito. Se você discrimina demais, você se limita. Se é exigente ou ambicioso em excesso, sua mente não é rica nem auto-suficiente. Se nossa mente perder sua auto-suficiência original, todos os preceitos se perderão. Quando sua mente se torna exigente, quando você anseia por algo, você acaba por violar os preceitos: não mentir, não roubar, não matar, não ser imoral e assim por diante. Se você conservar sua mente original, os preceitos se manterão por si próprios.” (Mente Zen, Mente de Principiante, Editora Palas Athena, como publicado)

    Bem, o que observou o prof. Joaquim em sua exposição é que o kanji apropriado a representar um agente que se principia em algo seria grafado de forma diversa, a saber, 初心者 – sho-shin-sha (substantivo), “beginner”, e o kanji utilizado no livro, 初心 – sho-shin, “original”, “intention”, “initial”, “resolution”, por sua vez indicaria um estado ou qualidade, daí o sentido mais preciso, preferível, seria “inicial”. Concluindo, o termo no livro deveria ser entendido como mente inicial, original, e não “mente de principiante”. Mais: não se trataria de uma “mente virginal”, apenas livre de preconceitos e aberta para o que der vier, mas um estado específico que se alcança com o desenvolvimento da meditação, portanto, envolvendo algum grau de perícia, uma qualidade que no contexto do livro inversamente se consagrou negativa, pois ali há clara intenção de denunciar o vício dos que têm sua “xícara cheia”, ou seja, não admitem reparos às suas certezas. A exposição ainda explorou amplamente que estado seria esse e como seria atingido.

    Prof. Joaquim Monteiro enfatizou posteriormente que “a referida palestra só tem por intenção colocar algumas questões pertinentes e não apresentar uma conclusão definitiva sobre um tema tão complexo”. Creio, contudo, que essa ressalva não diminuiu em nada a originalidade da exposição e o convite à reflexão.

    Da perspectiva pretendida pelos expositores, parece que o status desse “iniciante”, alguém que simplesmente ignora os fundamentos do que se propõe realizar, cai bastante, não? De fato, uma condição inicialmente positiva de abertura e ausência de preconceitos pode mais à frente facilmente ser confundida com inocência desculpável e, nesse caso, essa condição em nada nos ajudaria a partir de determinado ponto do caminho e é evidente que tanto melhores serão os resultados a serem obtidos, quanto maior for nossa habilidade, não é mesmo? Será que um monge em treinamento pode se desculpar de seus erros apelando somente para sua inábil “mente de iniciante”? Essa certamente é uma outra questão que surge e que não podemos ignorar, não?

    Isshin-sensei lembrou ainda que mestre Shunryū Suzuki não dominava inglês plenamente, o que é visível quando se ouve algumas das palestras que deram origem ao seu livro e que podem ser ouvidas aqui. É provável, neste contexto, que o mestre tivesse dificuldade de expressar conceitos totalmente ignorados em cultura tão diversa da sua, eventualmente tenha escolhido, por engano, vocábulos em inglês que entendia serem compatíveis com os termos originais, ou tentava explanar por aproximação, consciente disso. Como conclui Isshin-sensei, ele estava ensinando o que era possível aos ouvintes assimilarem. Outros professores do Dharma confessaram ter escolhido mal alguma palavra quando tentavam se expressar no idioma dos ouvintes.

    Enfim, importante dizer que não pretendo aqui mais que sugerir uma reflexão. Para o aprofundamento do tema, assistam ao vídeo da palestra e reflitam: que tipo de mente é preferível em cada etapa do caminho?

    Organização: Rodrigo Daien

  • Nichiren

    Gassho para a vida

    “Gasshô” expressa respeito ao próximo e com este sentimento devemos reverenciar os outros. De acordo com o Sutra de Lótus é a prática da frase: ‘Tenho por vocês profunda reverência’. O “Gasshô” tem o poder de fazer com que a outra pessoa retribua mutuamente. Que tal? Vamos tornar um hábito a prática do Gasshô?

    No ocidente cumprimentamos com o aperto de mãos. Se estendemos a mão, mesmo o japonês que não tem este costume, acaba por estender também. O Gasshô também é assim. Induz a manifestação desse sentimento. Mas não importa se não retornarem o Gasshô. Isso porque essa é uma prática para si mesmo. Ao fazermos Gasshô constantemente, um dia pode ser que façam Gasshô para nós também. Fazer Gasshô para quem gostamos é uma coisa natural. Vamos fazer Gasshô também a quem não gostamos ou evitamos. Esse é o verdadeiro sentimento do Gasshô. Isso torna como uma primeira prática para o seu coração, não acham? Vamos começar a prática na hora das refeições: Antes de comer, agradecer pela comida servida: ITADAKIMASU (recebemos vida) e após a refeição: GOTISOSAMA (Agradecemos pela vida recebida). Vamos ser gratos a vida. Com a força do Gasshô vamos mudar a nós mesmo. Vamos mudar a sociedade. Vamos realizar a paz e a tranquilidade a partir da prática do Gasshô.

    No Sutra do Lótus, no capítulo 20, o Bodhisattva ‘Nunca Desprezando’ (Sadāparibhūta em sânscrito, Jofukyo Bosatsu em japonês), consta o seguinte: “Tenho por vocês profunda reverência, nunca vos tratarei com desprezo ou arrogância. Por quê? Porque estão todos a praticar a via do bodhisattva e seguramente alcançarão a Iluminação.”

    Nichiren Shonin falou que a expressão é diferente, mas essa frase se lê em outras palavras: MYOHORENGEKYO. Essa frase também é conhecida como “O Sutra do Lótus dos 24 caracteres (kanjis)” – Ware fukaku nandati wo uyamau, aete kyouman sezu. Yue wa ikan, nandati mina bosatsu no dou wo gyou jite, masani sabutsu suru koto wo ubeshi.

    Na carta de Nichiren Shonin consta o seguinte: O Sutra de Lótus é o verdadeiro coração do Buda. O coração do Buda transborda de compaixão, por isso mesmo para aqueles que não conhecem a profundidade das instruções do Buda, os seus benefícios são incalculáveis. Da mesma forma que uma planta torta como o absinto se for cultivada dentro de um cânhamo que é reto, se tornará reta também, e se colocarmos uma cobra num tubo ela também ficará reta. Assim, nosso coração, nosso comportamento, nossas palavras se tornarão corretos. Aqueles que acreditam neste Sutra são as pessoas que se encaixam nesta intenção do Buda.

    No budismo existem muitas teorias difíceis. Porém se apenas estudarmos essas teorias, é como comermos um bolinho de arroz desenhado num papel. Nada vai mudar.

    O objetivo de cada pessoa é diferente eu suponho. Mas fazendo como objetivo comum a todos nós da Nichiren Shu, vamos fazer do “Tan gyo rai hai” do Sutra do Lótus, a nossa prática. Vamos espalhar essa prática às pessoas ao nosso redor.

    *texto escrito pelo rev. Yodo Okuda Shonin da Nichiren Shu Brasil.

  • Terra Pura

    Lembrando os Mortos

    É sempre bom lembrar que este rito que realizamos em memória de nossos entes falecidos, em japonês se chama Hôji ou também pode ser chamado Butsu-ji, e tem o sentido de ser o dia em que a família e os amigos se reúnem para prestar uma homenagem em memória de um ente querido falecido.

    Durante essa Celebração de Homenagem Póstuma, nós recitamos os textos sagrados do Budismo e todos temos a oportunidade de diante do altar, oferecer incenso e juntando nossas mãos na postura de gasshô (mãos postas na postura de prece), prestar nossa reverência em memória da pessoa falecida.

    No altar, nós colocamos, geralmente, o Hômyô, o Nome Búdico ou Nome de Dharma, como símbolo de que esta vida que parece ter se expirado diante de nossos olhos, na verdade é vida que retornou, que se reunificou na Fonte de Vida e de Luz de Sabedoria Infinitas, que é de onde tudo vem e para onde tudo um dia retorna.

    O Hômyô, o Nome Búdico ou Nome de Dharma, normalmente é inscrito numa moldura, para ser afixado na parede lateral interna do Nai-butsu (conhecido geralmente como Butsudan) ou oratório domiciliar, o altar que os budistas normalmente mantêm em seus lares; ou ainda o Hômyô é inscrito no Kakotyô, um livro que contém os nomes e datas de falecimento dos antepassados da família; mas no Brasil, por uma questão de costume, ficou quase institucionalizado o uso do Ihai, a Tabuleta Memorial, ou Tabuleta Votiva, na qual inscrevemos o nome da pessoa falecida, a data de falecimento, a idade com que a pessoa faleceu e o mais importante: o Hômyô, o Nome Búdico ou Nome de Dharma, simbolizando que a pessoa falecida é para nós como um mestre, alguém que por seu próprio exemplo, nos traz à reflexão sobre a impermanência de nossa vida e nos convida a ouvir o Dharma de Buda, que nos conduz pelo caminho da transcendência dos sofrimentos do nascimento, velhice, doença e morte. Portanto, o Ihai torna-se para nós, como um monumento em memória da pessoa falecida, que agora é una com Vida e com a Luz Infinitas.

    A essa Fonte de Vida e de Luz de Sabedoria Infinitas, no Budismo nós damos o nome de Amida (Amida-Butsu ou Amida-Nyorai), o Buda da Vida e da Luz Infinitas, que está representado no altar pelo Ícone Sagrado, que pode ser uma estátua, uma pintura ou mesmo a inscrição do Nome Sagrado, o Namu-Amida-Butsu.

    O Buda Amida não é um santo, um deus, ou uma pessoa, mas é a representação do próprio Dharma, do princípio sagrado de Vida e Luz, de onde tudo vem e para onde tudo um dia retorna.
    Compreendendo a vida desta maneira, podemos compreender que a vida de nossos entes queridos falecidos é exatamente manifestação dessa Vida sagrada; que se manifestou neste mundo através do nascimento, existiu durante um determinado período de tempo e que um dia, assim como o corpo retornou para sua natureza material, a vida retorna para sua natureza primordial. Dessa forma, usando uma expressão dos textos sagrados do Budismo, “assim como as águas dos rios, ao penetrarem no oceano se tornam com um só sabor, o sabor da água do mar”, podemos compreender que a vida de nossos entes queridos falecidos agora, é vida una com a Vida Infinita, vivificando as nossas existências e é luz una com a Luz de Sabedoria Infinita de Buda, que estará sempre iluminando os nossos corações e os caminhos de nossas vidas.

    Por isso, em memória de nossos entes queridos falecidos, nós nos reunimos, recitamos os textos sagrados do Budismo, oferecemos incenso e do fundo de nosso coração prestamos nossa homenagem a essa Vida e Luz Infinitas, recitando o Sagrado Nome de Buda, o Namu-Amida-Butsu.

    Rev. Wagner Haku-Shin

  • Budismo Tibetano

    Mantenha esses pontos em mente

    Por: Kyabgön Phakchok Rinpoche. Link para o post original no Facebook: goo.gl/4kJUWa
    Tradução livre.

    “Caros amigos próximos e distantes,

    Neste Dia de Guru Rinpoche (10 de Janeiro), eu gostaria de compartilhar três pontos curtos.

    1 – Nossa rotina é extremamente importante. Em termos de prática, isso significa manter uma rotina diária de prática. Este é o primeiro ponto.

    2 – Em segundo lugar, gerar compaixão-correta, inequívoca compaixão e equilibrá-la com a meditação é muito importante.

    3 – E em terceiro lugar, encontrar nossas próprias falhas, mas sem julgar a nós mesmos. Isto é essencial, mas também é bastante difícil. Nós temos nossos próprios problemas, dificuldades e particularmente maus hábitos. Temos um monte de egoísmo e muitos maus hábitos. Por isso, é muito importante checar e tomar consciência delas.

    Por favor, tente manter estes pontos em mente para aplicá-los ao longo de suas vidas.

    Com muitas aspirações,

    Sarva Mangalam!”

  • Zen

    Os dez passos em busca do Boi – parte I

    Vamos estudar um texto muito famoso do zen e também os comentários feitos a respeito por Katsuki Sekida. Trata-se do texto “Os dez passos em busca do boi.” Temos aqui o boi, simbolizando o que seria a mente.

    O primeiro passo é “Começando a buscar o boi”. Na literatura budista se compara o boi com nossa própria natureza verdadeira, assim, buscar o boi é investigar esta natureza, e o primeiro estágio é o começo dessa investigação. Consideremos um jovem no umbral do caminho: sua imaginação espera muitas coisas do futuro. Umas vezes, alegre, outras pensativo, espera que a vida tenha destinado para ele algo, mas não sabe o que ocorre na realidade, pois, na verdade, ele mesmo não sabe bem o que deseja da vida. A imagem é um homem no caminho. Ele não enxerga o boi que está procurando, ele poderia abrigar a idéia de trabalhar para os demais negando a si mesmo, se sacrificando. Pode ser que pense assim: “Quero fazer algo grande, quero saber como se constitui o mundo e que papel há de ser o meu, quem sou eu, que posso esperar de mim”. Então ele poderá iniciar seus estudos em algo que possa levá-lo a cumprir seus objetivos e sonhos, e em qualquer direção que vá tende a encontrar-se com uma intrincada rede de tráfego, uma espécie de grande labirinto. Trabalhando numa situação que não havia previsto originalmente, vai andando e, de repente, apesar do caminho estar fixado, surge-lhe a sensação de que algo falta. É nesse momento que as pessoas procuram uma religião.

    O zazen é o treinamento para converter-se em Budha, para voltar a ser um Budha, posto que a pessoa não perceba que é um desde o princípio. Então ele encontra-se no estágio de iniciar a “busca do boi.” Essa é praticamente, a descrição de todos que chegam a uma prática espiritual – aconteceu algo, parece que a rede da vida não é suficiente ou está incompleta, não nos realizamos completamente.

    O segundo passo é “Encontrando as pegadas”. Praticando o zazen e lendo a literatura adquire-se certa compreensão – ainda que não se tenha vivido – todavia, uma experiência mística, o kensho. Na primeira etapa, quando se começa a busca, pode-se haver duvidado da possibilidade de alcançar o objetivo olhando nessa direção, mas agora existe a confiança de que se seguir esse caminho, alcançará sua meta. “Encontrar as pegadas” é encontrar uma prática espiritual que tem algo a ver com a pessoa, algo com o que temos conexão, então, surge a confiança de que se pode seguir naquele caminho e se chegar a algum lugar.

    O comentário de Sekida para estes dois passos é que “começar a buscar o boi é quando o principiante se inicia em como sentar-se, em como regular a respiração e a atividade mental. Nesse estágio ele é ingênuo, submisso e intensamente impressionável; o som do sino chega absolutamente puro e parece que penetra profundamente em seu coração, purificando-o. Todas as coisas criam em sua mente uma forte impressão, até um leve movimento da mão, ou dar um passo. Tudo, ele faz com gravidade, o que é muito importante e precioso, mesmo que ele não possa dar-se conta disso; é superior a um kensho pobre e comum. Essa devoção do principiante não deveria perder-se nunca, mas, desgraçadamente, muitos estudantes a perdem mais tarde, substituindo-a por alguns de seus logros meritórios e dessa forma começam a se dar muita importância”.

    A primeira coisa é quando o praticante aprende algo, daí quer mostrar que sabe, quer mostrar que sabe para os novatos, para o professor, quer sempre mostrar que sabe alguma coisa. Não se pode lhe ensinar nada sem que ele acrescente algo pra mostrar que sabe: “Ah, isso eu já sei.” Isso é ter perdido sua inocência, a sua mente de principiante. Ele sente-se um veterano.

    “Por isso uma instrução importante é não mostrar que sabe. Ao estudante do zen, pede-se que abandone a religião dos méritos, para entrar na de nenhum mérito”.

    Isso pode ser percebido na prática. Um principiante, quando realiza uma tarefa ou cerimônia e erra, não se importa muito com isso, porque ele sabe que pode errar, ao passo que quem perdeu a inocência envergonha-se por ter errado, ou justifica-se ou fica chateado pelo erro.

    A respeito do segundo passo, comenta Sekida: “Quando, a partir do primeiro passo, a prática do zazen começa a encaminhar-se, ao iniciar o segundo, “encontrando as pegadas”, ele vê como a mente começa a aquietar-se e, vê agora, com surpresa, que durante todo o tempo seu estado mental normal era revolto e agitado e que não se dava conta disso. Começa a perceber que vinha sofrendo de um vago e inquieto sentimento cuja origem não conseguia precisar. Porém, agora que pratica zazen, se acha livre desse estado em grande medida, vê que o zazen pode ser um meio de aquietar uma mente preocupada. Quando deu começo à prática na simples técnica de contar a respiração, ficou perplexo ao ver que não era nada fácil, mas depois de esforços tenazes, vai sendo capaz de manter focada sua mente dispersa e gradualmente começa a pôr em ordem a atividade de sua consciência, dando-se conta de que uma nova dimensão mental começa a atuar, mas ainda está longe de experimentar um kensho genuíno”.

    Quando começamos no zazen, esse segundo estágio pode demorar muito tempo, porque basta que nos sentemos em zazen e nos acostumemos a nos distrair, a pensar, a viajar para trás e para frente, e podemos continuar fazendo isso durante anos: sentar em zazen para se acalmar, mas com a mente viajando pra frente e pra trás. Deixamos isso acontecer e não conseguimos ficar no momento presente só ouvindo os sons, só entrando em samadhi, em concentração. É por isso que a primeira prática é conseguir um estado de samadhi: sentar e ficar naquele momento, pegar a mente viajante e a cada instante trazê-la de volta; isso é muito difícil. Então, não basta sentar quieto, é necessário esse esforço mental, uma luta real pra trazer a mente de volta, estar presente, não se deixar distrair. O sesshin é o melhor momento para isso, pois repetimos um zazen após outro.

    No terceiro passo “vislumbrando o boi”, por fim, se encontrou o boi, mas dele se viu apenas o rabo e as patas; houve uma experiência do tipo de kensho. Mas se lhe perguntam de onde vem e para onde deve ir, não sabe dar uma resposta clara. Desde o princípio, sempre houve muitos tipos de kensho. O satori de shakyamuni Budha foi a criação de um novo mundo, antes de seu tempo, ninguém sequer sabia que existia tal acontecimento. A experiência sem precedentes ocorreu subitamente a Budha, atravessando-o como um raio e todos os problemas resolveram-se no mesmo instante. Se Budha não estivesse tão adiantado no treinamento não teria podido explorar de maneira criativa aquela região que nunca havia sido visitada por nenhum ser humano. Antes dessa experiência, Budha havia passado pela sétima e oitava etapas de nossa seqüência e havia alcançado a nona. Ele teve então um kensho completo, que é a iluminação real. Desde seu tempo tem havido muitos mestres zen que têm completado o curso de treinamento antes que tivessem a experiência de kensho. Muitos precisaram de quinze a vinte anos para que isso ocorresse. No terceiro estágio, temos uma situação análoga àquela de um principiante em pintura, que vê admitida sua obra por um golpe de sorte. É como quem está vendo apenas as patas ou o rabo do boi. Se fosse um pintor experiente, desde logo ele seria excelente e já demonstraria sua capacidade de artista, mas tudo depende de seus futuros esforços. Aos estudantes modernos do zen, nós lhes dizemos, ao começar, que há um acontecimento chamado kensho – iluminação -, uma experiência mística que os está aguardando. Quando cruzam o caminho desse terceiro estágio, tomam-no naturalmente como se fosse a experiência de Budha, como se tivessem chegado ao cume da prática do zen, vão subindo por rochas e arbustos desejando essa visão e à primeira olhada gritam: “É isto, cheguei!”, certos de que o que vêem não é falso. Mas há uma grande diferença entre sua experiência e a de Budha em conteúdo, beleza e perfeição. Isso tem acontecido bastante, pessoas que têm uma primeira experiência, um pequeno vislumbre da experiência e se crêem iluminados e saem se auto-intitulando mestres iluminados a propagandear “mestre iluminado vai dar um curso no final de semana e você poderá alcançar a iluminação em dois dias”. Hoje, nesse sesshin, nós temos outra situação. Nem um mestre iluminado, nem ninguém, irá alcançar a iluminação. Teoricamente poderia acontecer, e também pode acontecer uma situação como esta, um primeiro vislumbre. É que o primeiro vislumbre, embora espetacular para quem o experimenta, não significa estar iluminado, significa só: “Vi o rabo e as patas; nem vi o boi inteiro”. A observação de Sekida a esse respeito é que no estágio “Vislumbrando o boi”, se experimenta, em algumas ocasiões, certo tipo de samadhi, mas ele é instável e carece de segurança. Ainda assim o mestre pode tomar a mão do aluno que tenha tido essa experiência e conduzi-lo até a sala de meditação dizendo-lhe: “É isso, é isso”. Tal atitude faz parte da estratégia do mestre, o qual se adapta à capacidade e necessidade do estudante. Alguns mestres são muito estritos e dão crédito ao aluno mais facilmente, outros menos. Todos têm sua forma individual de ensinar e há razão em seus métodos. Falando em geral, quando o estudante é promovido, adquire certa confiança e sua prática começa a andar nos trilhos. Entretanto, há exemplos de estudantes que têm estudado sob o comando de mestres estritos durante dez ou quinze anos, sem que hajam recebido alguma confirmação de seu adiantamento e que um dia explodem com uma iluminação genuína, isso se chama satori, iluminação repentina e direta, e aquele que vivencia uma experiência exaustiva e profunda, tem uma experiência igual à que teve Budha Shakyamuni. O método de adiantamento gradual, passo a passo, chama-se zen escalonado, quando comparado à iluminação súbita e direta, mas tanto se avançarmos gradualmente, como se formos de um salto, tudo depende da própria determinação de alcançar o topo. Não duvidem, é preciso um esforço desesperado para alcançar uma iluminação genuína. (segue)

    Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Organização: Rodrigo Daien